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Fachin dá recado a ministros em sessão do STF sobre mensagens de Vorcaro a Moraes: 'Divergência é legítima. Confronto pessoal, não'

Fachin dá recado a ministros em sessão do STF sobre mensagens de Vorcaro a Moraes: 'Divergência é legítima. Confronto pessoal, não'

O ministro Flávio Dino pediu mais tempo para analisar o caso que pode resultar em uma investigação sobre Alexandre de Moraes, em decisão que estende a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e pode levar o desfecho para depois da eleição.

  • Sessão: Julgamento histórico no STF pode transformar Alexandre de Moraes no primeiro membro da Corte investigado
  • Ao vivo: Acompanhe o julgamento da investigação de Moraes por conversas com Vorcaro

O pedido de vista feito por Dino, integrante do grupo na Corte mais próximo a Moraes, tem prazo de até 90 dias, o que, no limite, empurraria a análise para 15 de dezembro, às vésperas do início do recesso judicial.

Moraes foi, segundo a Polícia Federal, destinatário de 52 mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro. Os textos incluíam pedidos de orientação. O relatório da PF não registra respostas de Moraes, que nega ter recebido as mensagens.

Mesmo com a manifestação por uma paralisação, os ministros continuaram a argumentar sobre a análise em conjunto do caso Moraes com processo que trata sobre a conduta de André Mendonça na relatoria das investigações sobre o Banco Master.

Fachin votou para manter separadas as análises e a favor de os integrantes de tribunais superiores eventualmente citados no Caso Master serem avisados de menções, mas sem que haja uma suspensão das discussões em curso. Ele foi seguido por André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia.

Cármen Lúcia na Sessão Extraordinária do STF — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA
Cármen Lúcia na Sessão Extraordinária do STF — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA

— Eu estou pedindo desculpas à Vossa Excelência, pedindo desculpa a todos os colegas por não ter ajudado a que a gente superasse tudo isso de uma maneira mais rápida. Eu peço desculpa ao povo brasileiro, talvez tenha esperado de mim uma postura diferente, mas acho que todos nós aqui queríamos a mesma coisa, que era de tentar resolver e as questões não foram resolvidas e foram crescendo demais — disse Cármen.

De outro lado, Gilmar Mendes, autor de questão de ordem sobre o assunto, Cristiano Zanin e o próprio Moraes votaram pela análise em conjunto do caso de Mendonça. O placar chegou, então, ficou em 4 a 3 pela análise em separado. O ministro Flávio Dino, apesar de ter se manifestado a favor da questão de ordem, não teve o voto computado porque foi o autor do pedido de vista.

Durante a tumultuada sessão, o plenário se debruçou sobre quatro pontos:

  • se juntariam a análise dos casos Moraes e questionamentos à condução de Mendonça;
  • Se redistribuiriam o caso Moraes para outro relator;
  • avisariam magistrados de tribunais superiores sobre citações no caso Master;
  • abriririam prazo para PGR e magistrados se manifestarem

No fim da tarde, a discussão subiu de tom após uma manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e levou Flávio Dino a pedir vista.

Gonet rebateu questionamentos sobre sua relação com Vorcaro e afirmou não ter mantido proximidade com o banqueiro. O procurador-geral disse ainda que Mendonça havia reconhecido não haver ilicitude nos elementos recolhidos.

— Eu fico feliz que o ministro André Mendonça tenha reconhecido que não tem nada de ilícito no que foi recolhido. Não tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro. O único encontro se deu com várias autoridades em abril de 2024 — afirmou.

Segundo Gonet, a única outra relação, intermediada por advogados, foi “brevíssima e banal”. Ele também defendeu a atuação do Ministério Público:

— Quem analisa os fatos sem viés verá que o Ministério Público foi preciso e correto.

"Desfaçatez"

Na sequência, Mendonça afirmou que seria natural que, olhando para os fatos hoje, Gonet reconhecesse que poderia ter agido de forma diferente em um ou outro episódio. Gilmar então interrompeu o colega, saiu em defesa do procurador-geral e classificou como “leviandade” as ilações feitas contra ele.

Mendonça e Gilmar na Sessão Extraordinária do STF — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA
Mendonça e Gilmar na Sessão Extraordinária do STF — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA

— É impressionante, presidente, que uma pessoa da estatura do procurador-geral Paulo Gonet sofra esse tipo de ilação. Isto, sim, é leviandade. Isto, sim, é leviandade. Um sujeito com sentimento policialesco. É impressionante a desfaçatez deste sujeito — afirmou Gilmar.

Mendonça reagiu aos gritos:

— A desfaçatez é de Vossa Excelência! Me respeite!

O bate-boca prosseguiu. Gilmar afirmou que Mendonça poderia “chorar”, ao que o ministro respondeu que “não teria choro”. Diante da escalada, Dino interveio e anunciou um pedido de vista. Ao justificar a decisão, disse que precisava interromper a discussão e cobrou de Edson Fachin uma atuação para conter o clima de confronto no plenário.

— Há horas, há horas, Vossa Excelência está assistindo a isto. Se Vossa Excelência vai assistir a isto, eu não vou, porque eu sou funcionário público deste país e tenho respeito a ele — disse Dino.

"Mensagem comigo não tem"

A sessão teve um embate entre os ministros Luiz Fux e Flávio Dino. Fux afirmou que não há nenhuma conversa dele com Vorcaro. A declaração foi dada durante bate-boca com Dino, que citou diálogos do banqueiro com outros membros da Corte.

— Mensagem desse cidadão comigo não tem — afirmou Fux de forma áspera. — Alguém falando de mim? Comigo, não. Nunca vi esse cidadão na minha vida, nunca tive relação com ele — completou ele.

Antes, Dino havia se queixado com o presidente do STF, Edson Fachin, sobre a sessão extraordinária em curso à qual ele chamou de "desastrada".

Fux e Dino na Sessão Extraordinária do STF — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA
Fux e Dino na Sessão Extraordinária do STF — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA

— Acho que Vossa Excelência não se deu conta disso, porque Vossa Excelência, além de marcar esta sessão desastrada, ainda marcou uma na próxima semana. E nas próximas semanas, Vossa Excelência está condenado a marcar dezenas de sessões iguais a essa. (...) As mensagens do ministro Fux, as mensagens do ministro Kassio, as mensagens relativas ao ministro André, nós vamos parar aonde? — disse Dino.

Bate-boca no início da sessão

A primeira parte da sessão do Supremo sobre o caso envolvendo Moraes também foi marcada por um enfrentamento entre ministros e acusações pessoais, mas também sobre a forma do encaminhamento da reunião em plenário. Após Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli se declararem impedidos, Gilmar Mendes e Flávio Dino criticaram o fato de o presidente do tribunal, Edson Fachin, assumir a relatoria da petição relacionada à troca de mensagens entre Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ocorrida às vésperas da prisão do banqueiro. Houve discussões entre Gilmar e o ministro André Mendonça, que também se desentendeu com Moraes. Em outra frente, Dino e o presidente da Corte, Edson Fachin, também bateram boca.

O presidente do STF e Mendonça rebateram a tese de que Fachin tenha ferido o regimento ao "avocar" o caso, que estava nas mãos de Mendonça.

Segundo eles, os autos foram encaminhados à presidência do STF apenas porque o tema era de responsabilidade do plenário. Antes do debate sobre questões regimentais, Fachin deu uma série de recados aos ministros.

Após semanas de embate, especialmente entre Moraes e Mendonça, que determinou a elaboração do relatório da Polícia Federal (PF) em julgamento, Fachin pediu serenidade aos colegas e defendeu que as decisões cabem ao plenário, não aos integrantes da Corte individualmente. É a primeira vez que a Corte analisa uma possível investigação envolvendo um dos seus integrantes.

Acusações

Em um ambiente tensionado, Gilmar e Mendonça bateram boca no fim da primeira parte da sessão. O decano acusou o colega de adotar um tom "político eleitoral" na condução do caso Master. Em resposta, Mendonça disse que Gilmar estava sendo "leviano".

Gilmar e Mendonça discutem em sessão no STF, e decano afirma que colega adotou condução 'político eleitoral ' — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA
Gilmar e Mendonça discutem em sessão no STF, e decano afirma que colega adotou condução 'político eleitoral ' — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA

— Há um inequívoco viés político-eleitoral na forma como o tema foi conduzido nos autos desta PET 16.662, com toda sinceridade. Escolha de data, 7 de setembro, todo esse cenário. Teve até pixuleco — disse Gilmar, em referência a bonecos com o rosto de Mendonça que foram levados em manifestações de apoiadores do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.

— Está sendo leviano, ministro — retrucou Mendonça

— Pessoas decentes não fazem isso — afirmou Gilmar.

— Não aponte o dedo para mim, Ministro Gilmar. Não aponte o dedo. Não está falando com qualquer um. Respeite esse tribunal — respondeu Mendonça.

— Quem não se dá respeito não merece respeito — disse Gilmar.

Embate entre Moraes e Mendonça

Moraes acusou o ministro André Mendonça de ter mandado incluir o seu nome na investigação do Master e o questionou sobre "quem tem medo da PF". Moraes alegou que o colega "exigiu" que a Polícia Federal colocasse o seu nome na delação premiada de Vorcaro e afirmou ter testemunhas que comprovariam essa história.

Moraes nega ter recebido mensagens de Vorcaro e diz que investigação determinada por Mendonça é nula — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA
Moraes nega ter recebido mensagens de Vorcaro e diz que investigação determinada por Mendonça é nula — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA

— Quem tem medo da Polícia Federal? (...) Quem chamou a Polícia Federal e exigiu que Polícia Federal colocasse um colega na colaboração premiada. E vamos trazer aqui e chamar aqui testemunhas que eu vou indicar — questionou Moraes.

Relator do caso Master na Corte, Mendonça rebateu a fala de Moraes, dizendo que ele estava mentindo. Antes, o ministro chegou a dizer que havia uma "PF paralela" fazendo um "monitoramento ilegal" contra ele.

— Nós temos hoje uma PF paralela, uma PF paralela, com monitoramento de ministros. Não pense que você está salvo não, ministro — afirmou Mendonça.

A posição de Fachin

No início da sessão, Fachin havia pedido "serenidade" e "equilíbrio" aos ministros.

— A divergência é legítima. O confronto pessoal, não. E a decisão pertence ao plenário, não a um ministro individualmente. São premissas simples, mas em momentos de tensão institucional é necessário dizer o que deve orientar a nossa atuação — disse Fachin no início da sessão. — Não será qualquer um de nós que falará pelo Supremo, mas o plenário. Peço equilíbrio.

Fachin diz em sessão do STF sobre mensagens de Vorcaro a Moraes que decisão é do plenário: 'Divergência é legítima. Confronto pessoal, não' — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA
Fachin diz em sessão do STF sobre mensagens de Vorcaro a Moraes que decisão é do plenário: 'Divergência é legítima. Confronto pessoal, não' — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA

O presidente da Corte fez referências nominais a todos os integrantes e afirmou ainda que a discussão sobre a forma como o relatório foi elaborado é importante para a resolução do caso.

— Não se julgam pessoas. Julgam-se fatos e questões jurídicas. Não se antecipa o mérito antes de resolvida a validade processual.Não se antecipa o mérito antes de resolvida a validade processual — disse Fachin.

Ao longo do discurso, que durou oito minutos, Fachin acrescentou que o STF passou por "autoritarismo, ameaças e incompreensões" e precisa se resguardar diante da crise atual:

— Não temos o direito de entregar às gerações futuras um Supremo Tribunal Federal menor do que aquele que recebemos — disse Fachin. — Este não é um dia comum. Somos seres humanos. Podemos errar, divergir, mudar de entendimento e er percepções distintas sobre os mesmos fatos e sobre o Direito. O momento exige de nós aquilo que se espera de quem exerce a jurisdição constitucional: sensatez, decoro e serenidade. A divergência faz parte da jurisdição. O que não pode fazer parte dela é a perda da medida institucional.

Nunes Marques se diz impedido

O ministro Nunes Marques se declarou impedido para participar do julgamento do relatório da Polícia Federal com mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. A decisão foi tomada após a revelação de diálogos que citam pagamentos de Vorcaro ao seu filho, o advogado Kevin Marques.

Ministros Nunes Marques e Dias Toffoli se declaram impedidos de votar — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA
Ministros Nunes Marques e Dias Toffoli se declaram impedidos de votar — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA

— Em que pese, e os debates vão fluir, que esse julgamento eventualmente pode também impactar no cenário político eleitoral. Então, na condição de presidente do TSE, eu não me sinto confortável para participar desse julgamento e afirmo o meu impedimento — disse Nunes Marques.

Ele afirmou que nunca julgou processos do Banco Master.

— É bom que registre que, em relação ao caso, eu nunca troquei nenhuma mensagem, não há registro de nenhuma mensagem minha com Daniel Vorcaro — disse Nunes Marques. — E a minha isenção está calcada e absolutamente comprovada nos votos que eu proferi. Se eu me sentisse desconfortável ou cooptado de alguma forma, Jamais teria votado pela confirmação da prisão de Daniel Vorcaro, do seu pai e de outras pessoas envolvidas.

Toffoli deixa o caso

Após o ministro Kassio Nunes Marques delcarar-se impedido para participar do julgamento desta terça-feira, Dias Toffoli fez o mesmo e também afirmou que não se sentir confortável para deliberação sobre o caso envolvendo o colega Alexandre de Moraes.

Toffoli foi relator do caso Master antes do processo chegar às mãos de André Mendonça.

— (Não participarei) não por me sentir impedido, mas por questão de foro íntimo.

Ele deixou a relatoria do caso Master após reconhecer que é sócio da empresa Maridt, que vendeu uma participação no resort Tayayá, no interior do Paraná, para um fundo do cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Toffoli disse que declarou à Receita Federal os valores recebidos na negociação e afirmou que nunca "recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel".

A empresa de Toffoli integrou a administração do resort até fevereiro de 2025. O ministro é o relator, na Corte, da investigação sobre as supostas fraudes na tentativa de compra do Master pelo BRB. A Polícia Federal entregou ao presidente do STF, Edson Fachin, o material encontrado no celular de Vorcaro, em que há menções a Toffoli.

Fachin questionado

Os ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino questionaram nesta terça-feira o fato de o presidente da Corte, Edson Fachin, ter assumido a relatoria do caso envolvendo as mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. Fachin se tornou relator por decisão própria após retirar o ministro André Mendonça da relatoria do caso.

— Sugeri à Vossa Excelência (Fachin) que atraísse a PET 16.662 para a presidência com a finalidade de delimitar o objeto do julgamento. A sugestão não tinha como objetivo que Vossa Excelência assumisse a relatoria definitivamente de tal procedimento. Em nenhum momento cogitei que o presidente da Corte assumisse a PET. O regimento interno deste Supremo determina a distribuição dos processos que aportam nesta Corte, com exceção das hipóteses taxativas de registro à Presidência — disse Gilmar.

Gilmar Mendes questiona Fachin ter assumido relatoria do caso das mensagens de Vorcaro a Moraes — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA
Gilmar Mendes questiona Fachin ter assumido relatoria do caso das mensagens de Vorcaro a Moraes — Foto: Arte O GLOBO/ Fotomontagem com uso de IA

Em seguida, Dino concordou com a posição de Gilmar. Os dois magistrados são da ala próxima a Moraes.

— Se nós aceitarmos a avocatória, presidente, nós estaremos abrindo uma avenida de autoritarismo, de despotismo, de tirania nos tribunais que ninguém vai controlar — afirmou Dino, acrescentando que Mendonça é o relator natural do caso. — Eu discordo da condução dele (Mendonça) no caso INSS. Mas discordo nos autos. Não posso tomar o processo dele.

Entenda o julgamento

A Polícia Federal elaborou um relatório por ordem do ministro André Mendonça, relator de investigações relacionadas ao Banco Master. O documento foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR) e desencadeou uma sucessão de decisões, ofícios e acusações entre integrantes da Corte, além de envolver a própria PF, a PGR e a Advocacia-Geral da União (AGU). O presidente do STF, Edson Fachin, acabou assumindo a condução do caso numa tentativa de conter a escalada da crise.

Em manifestação a Fachin na véspera do julgamento, Moraes afirmou que Mendonça atou de forma "inconstitucional e ilegal" e negou favorecimento a Vorcaro. A segurança foi reforçada nas proximidades do STF, que fica na Praça dos Três Poders, em Brasília.

Entenda a crise em sete pontos

1. O relatório da PF e as mensagens envolvendo Moraes

A origem da crise está em um relatório produzido pela Polícia Federal, a pedido de André Mendonça, a partir do material apreendido no celular de Daniel Vorcaro. Entre as mensagens analisadas pelos investigadores estão referências a Alexandre de Moraes.

Mendonça, relator de investigações relacionadas ao Banco Master, encaminhou o relatório à PGR. A partir daí, o material passou a alimentar questionamentos sobre a existência ou não de elementos que justificassem uma investigação envolvendo Moraes.

A PGR se manifestou contra o prosseguimento da apuração e questionou a forma como o relatório foi produzido. A discussão, porém, deixou de ficar restrita aos autos e provocou uma disputa aberta dentro do Supremo.

2. Moraes reage e pede investigação sobre Mendonça

A reação de Moraes abriu uma segunda frente da crise. O ministro passou a questionar a atuação de Mendonça na condução do caso e pediu que fossem investigadas as circunstâncias em que o colega determinou diligências relacionadas às mensagens de Vorcaro.

Moraes chegou a incluir a apuração sobre Mendonça no Inquérito das Fake News, aberto em 2019 e então conduzido por ele. Fachin posteriormente retirou o episódio desse inquérito e abriu um procedimento separado para analisar os fatos.

Com isso, o Supremo passou a lidar simultaneamente com questionamentos sobre a conduta de dois de seus próprios ministros: de um lado, as mensagens envolvendo Moraes; de outro, a atuação de Mendonça na investigação.

3. O sigilo do caso Master e a guerra de ofícios

Outro ponto de atrito é o grau de sigilo imposto às investigações do Banco Master e, principalmente, quem pode ter acesso ao conjunto do material apreendido pela PF.

A divergência provocou uma verdadeira guerra de ofícios dentro do Supremo. Moraes cobrou acesso à íntegra das mensagens de Vorcaro e questionou decisões de Mendonça que mantiveram parte do material sob sigilo.

O embate sobre o acesso aos documentos é central porque define quais ministros, órgãos de investigação e partes podem conhecer o conteúdo completo das conversas — e, consequentemente, avaliar se existem elementos para novas apurações.

4. Quem pode acessar o celular de Vorcaro

O celular de Daniel Vorcaro se tornou uma das peças centrais da crise. Foi a análise do aparelho que revelou as mensagens e referências que acabaram envolvendo integrantes do Supremo e outras autoridades.

A disputa, portanto, não se limita ao que já apareceu nos relatórios da PF. Há também uma discussão sobre quem pode acessar o conteúdo integral extraído do aparelho, quais informações podem ser utilizadas e quais permanecem protegidas por sigilo.

Essa questão ajuda a explicar por que a crise continua produzindo novos capítulos: o material apreendido contém um volume maior de informações do que aquelas que já foram formalmente analisadas ou tornadas conhecidas nos procedimentos em andamento.

5. Fachin tenta assumir o controle da crise

É nesse cenário que entra Edson Fachin. Como presidente do STF, ele passou a ser pressionado internamente a assumir uma postura mais incisiva para impedir que a disputa entre Moraes e Mendonça continuasse sendo conduzida por decisões individuais dos próprios ministros envolvidos.

Fachin retirou a investigação sobre Mendonça do Inquérito das Fake News, pediu esclarecimentos aos envolvidos e assumiu a relatoria do procedimento relacionado às mensagens envolvendo Moraes.

A decisão colocou o presidente do Supremo no centro da tentativa de pacificação. Por ser o relator, Fachin será o primeiro a se manifestar na sessão desta terça-feira. Depois dele, os demais ministros poderão apresentar seus votos e posições.

O julgamento, contudo, pode não terminar no mesmo dia. Qualquer ministro pode pedir vista e interromper a análise. Pelo regimento do Supremo, o processo deve ser devolvido para julgamento em até 90 dias.

6. O afastamento de Andrei Rodrigues amplia a disputa

A crise ganhou outra dimensão quando André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. A decisão provocou reação da Advocacia-Geral da União e abriu uma nova frente de tensão institucional.

Fachin deu prazo para Mendonça prestar informações sobre o recurso apresentado pela AGU, mas, antes que essa etapa fosse concluída, Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei ao comando da PF.

O episódio expôs ainda mais a fragmentação da condução da crise dentro do Supremo: enquanto Fachin tentava centralizar as discussões e estabelecer um rito, decisões de outros ministros continuaram interferindo diretamente nos desdobramentos do caso.

7. Gonet também entra no centro da crise

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também foi arrastado para o centro da controvérsia. Seu nome apareceu em referências encontradas no material atribuído a Vorcaro, ao mesmo tempo em que cabe à PGR se manifestar sobre possíveis investigações decorrentes dessas informações.

Gonet questionou a validade do relatório da PF e defendeu que ele fosse anulado. As citações ao procurador-geral também passaram a ser analisadas pelo Conselho Superior do Ministério Público Federal.

A situação adicionou mais uma camada à crise porque envolve justamente a autoridade responsável por decidir, em diferentes momentos, se existem elementos para levar adiante investigações contra autoridades com foro no Supremo.

O que acontece agora?

A sessão desta terça-feira está longe de representar o fim da crise. O primeiro teste será saber qual encaminhamento Fachin dará às mensagens envolvendo Moraes e como os demais ministros vão se posicionar. Mesmo que haja uma decisão, outra frente já está marcada para chegar ao plenário. No dia 23, os ministros devem analisar o pedido de investigação envolvendo André Mendonça.

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