O senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentou na quarta-feira conter duas crises simultâneas instaladas na sua pré-campanha com potencial de prejudicar ainda mais o seu desempenho no eleitorado feminino. Ao realizar um encontro com mulheres ligadas ao PL — evento no qual a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro se recusou a participar —, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro buscou minimizar o atrito com a madrasta e agiu para se desvincular da fala do aliado e blogueiro Paulo Figueiredo, que disse em live que “mulheres votam mal”. A declaração gerou protestos de aliados de Michelle, bem como de apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
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Após se afastar da presidência do PL Mulher, Michelle ignorou os apelos do presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, e não compareceu ao evento de pré-campanha de Flávio. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), também se ausentaram, em sinal de que o embate deve persistir.
A declaração de Figueiredo é da semana passada, em resposta ao vídeo em que Michelle diz que foi “maltratada” pelo enteado, mas ganhou repercussão ao longo dos últimos dias. Só no X, o vídeo teve 175 milhões de visualizações. Nele, Figueiredo critica a ex-primeira-dama e comenta o desempenho ruim de Flávio entre as eleitoras:
— Mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não. Podem arrancar os pentelhos das calcinhas, fazer o que quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas eu quero dizer a vocês: isso é estatística — disse o blogueiro, que vem atuando nos EUA ao lado de Eduardo Bolsonaro.
Redução de danos
Na tentativa de reduzir a repercussão da fala, Flávio disse ter se sentido “ofendido” pela declaração do aliado e afirmou que, se há resistência deste eleitorado, a responsabilidade é da própria campanha.
— Não concordo com o que ele falou. Ele não faz parte da nossa campanha. Ele trabalha e ajuda dos EUA, e é por isso que colocam no meu colo uma fala que não é minha. Eu não tenho responsabilidade, mas tenho obrigação de dizer que me senti ofendido. Nunca ele poderia dizer que é culpa das mulheres — afirmou.
Após o recado, Figueiredo disse que Flávio estava politicamente “certo” em repudiar sua fala, mas manteve sua posição.
O repúdio de Flávio foi uma tentativa de conter os danos no ambiente digital. De acordo com o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, ele recebeu de aliados levantamento que mostrava repercussão majoritariamente negativa nas redes. Figueiredo recebeu críticas até dentro da própria base bolsonarista.
— Chegaram ao absurdo, essa semana, de colocar em dúvida se a mulher tem capacidade de votar. Se a gente sabe escolher ou se merece ser escolhida — disse a senadora durante reunião da Comissão de Direitos Humanos do Senado, presidida por ela — afirmou Damares, uma das principais aliadas de Michelle.
Na base governista também houve reações de repúdio. Em uma conferência na terça-feira, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, rebateu a fala de Figueiredo, sem citá-lo diretamente.
— Faço uma pausa para lamentar que alguém vá à imprensa dizer que nós mulheres não sabemos votar. Aqui eu deixo o meu repúdio a essa pessoa, porque nós somos maioria da população e sabemos muito bem conduzir uma nação ao seu pleno desenvolvimento, andando lado a lado com os companheiros homens, para que esse Brasil finalmente chegue ao seu lugar — disse Janja, em seu discurso.
O encontro de Flávio foi marcado para debater políticas para as mulheres, mas o assunto principal, porém, foi Michelle e a crise instalada no PL.
Uma das principais aliadas da ex-primeira-dama, a vereadora Priscila Costa , pivô do desentendimento sobre palanques no Ceará, compareceu, em um aceno ao senador. Ela é pré-candidata ao Senado mas foi rifada da chapa negociada no estado. Na quarta-feira, buscou se aproximar de Flávio e postou mensagem de apoio nas redes.
Coube à economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e coordenadora do programa Brasil por Elas, abrir o encontro diante de cerca de 50 parlamentares, vereadoras, presidentes estaduais do PL Mulher e pré-candidatas.
Ela apresentou a primeira versão da plataforma que a campanha pretende lançar no próximo dia 15 e defendeu que a autonomia econômica das mulheres deve ser um dos pilares da proposta:
— As mulheres carregam todos os dias de 8,5% a 11% do PIB brasileiro. Cabe ao Estado brasileiro facilitar a vida das mulheres.
‘Equivocada’
Depois da apresentação, Flávio assumiu a condução da reunião. O senador reconheceu a dificuldade da campanha junto ao eleitorado feminino e afirmou que cabe ao próprio grupo político reverter esse cenário.
Em seguida, Flávio procurou fazer um gesto de reaproximação com Michelle, agradecendo o trabalho desenvolvido pela ex-primeira-dama à frente do PL Mulher e dizendo acreditar que os dois superarão a crise.
O ambiente, porém, mudou poucos minutos depois. Ao comentar uma publicação feita pela ex-primeira-dama sobre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, Flávio afirmou que Michelle estava “completamente equivocada”.
— Quero parabenizar o trabalho da Michelle Bolsonaro, porque muitas mulheres se interessaram pela política pelo trabalho dela. Acho que o que ela fez ou ela está sendo induzida não dá para entender muito bem. Quando ela pega um vídeo do (ex-governador) Garotinho insinuando que eu possa estar numa festa do Vorcaro, ela está completamente desinformada — afirmou.
Na postagem, Michelle republicou um vídeo sobre uma suposta festa de cunho sexual de Vorcaro com políticos — o que foi interpretado como um recado a Flávio. O senador negociou com o banqueiro financiamento milionário para filme biográfico do pai.
Segundo participantes, a declaração provocou um leve mal-estar entre parte das mulheres presentes justamente por ocorrer logo depois das manifestações em defesa da unidade.
No encontro, o grupo discutiu o fortalecimento das políticas de combate à violência contra a mulher — tema que, de acordo com a pré-campanha, já começou a ser incorporado ao pacote de segurança pública lançado pelo presidenciável há algumas semanas. Segundo participantes da reunião, o encontro serviu para detalhar algumas das propostas que deverão integrar o programa de governo.
No eixo econômico, a principal aposta é o incentivo ao empreendedorismo. Também foram debatidas medidas para ampliar a regularização fundiária, com emissão de títulos de propriedade em nome das mulheres, criar programas de capacitação profissional voltados às beneficiárias do Bolsa Família e desenvolver políticas públicas específicas para mães atípicas e famílias de pessoas com doenças raras. As sugestões ainda passarão por ajustes a partir das indicações feitas na ocisão antes de integrarem oficialmente o programa de governo da pré-campanha.
- Flávio Bolsonaro
- Michelle Bolsonaro