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Governo e partidos aliados trocam integrantes da CPI do Crime Organizado em ofensiva para enterrar relatório

Governo e partidos aliados trocam integrantes da CPI do Crime Organizado em ofensiva para enterrar relatório

A base governista articulou, às vésperas do encerramento dos trabalhos, a substituição de dois senadores de oposição na CPI do Crime Organizado em uma ofensiva para impedir a votação do relatório final da comissão ou derrotá-lo na última sessão do colegiado.

Deixaram o colegiado Sergio Moro (União-PR) e Marcos do Val (Podemos-ES), ambos integrantes do Bloco Parlamentar Democracia (MDB, PSDB, Podemos e União Brasil) e favoráveis ao parecer. Em seus lugares, entraram Beto Faro (PT-PA) e Teresa Leitão (PT-PE), alinhados ao governo.

A troca foi fruto de um acordo entre os partidos. Senadores envolvidos na articulação afirmam que, com a nova composição, havia um cálculo de ao menos sete votos para esvaziar a deliberação, em um cenário de 11 senadores titulares. Além dos dois novos integrantes, entram nessa conta o presidente da CPI, Fabiano Contarato (PT-ES), que vota em caso de empate, Humberto Costa (PT-PE), Soraya Thronicke (PSB-MS) e Otto Alencar (PSD-BA), formando maioria suficiente para impedir a votação ou derrotar o parecer.

Marcos do Val disse ao GLOBO estar indignado com a sua retirada:

— Estou tentando entender. O sistema é assim — reclamou.

Moro, por sua vez, atribuiu a retirada ao seu posicionamento.

— Iria votar a favor do relatório.

Nos bastidores, a leitura predominante é que a mudança alterou a correlação de forças no momento decisivo da CPI e consolidou o cenário que deve levar ao encerramento dos trabalhos sem deliberação do relatório — que inclui pedidos de indiciamento de ministros do STF e do procurador-geral da República.

O ato não tinha precedentes no Congresso. Não há registro de CPIs anteriores que tenham pedido, em relatório final, o indiciamento de ministros do Supremo. Tradicionalmente, as comissões concentram seus pedidos em parlamentares, integrantes do Executivo, empresários e operadores, sem alcançar a cúpula do Judiciário.

O precedente mais próximo identificado envolve a CPI do Sistema Carcerário, em 2008, que chegou a trabalhar com pedidos de indiciamento de juízes estaduais. Após intervenção do próprio Supremo Tribunal Federal, no entanto, o relatório final substituiu o termo por “responsabilização”.

A CPI dos Correios, que se debruçou sobre o Mensalão, pediu o indiciamento de dezenas de envolvidos, mas não incluiu ministros do STF. Em outros episódios, como na CPI das Escutas, ministros chegaram a aparecer como vítimas de interceptações ilegais, e não como alvos das investigações.

Aliados do governo sustentam que a substituição é regimental e prerrogativa das lideranças partidárias. A oposição, por sua vez, classifica o movimento como uma intervenção direta para barrar a votação.

A alteração foi formalizada no sistema do Senado com o seguinte registro:

“Em 14.04.2026, o Senador Beto Faro foi designado membro titular, em substituição ao Senador Sergio Moro, que deixa de compor a comissão; e a Senadora Teresa Leitão foi designada membro titular, em substituição ao Senador Marcos do Val, que deixa de compor a comissão, pela liderança do Movimento Democrático Brasileiro".