Este conteúdo faz parte da newsletter Jogo Político, de Thiago Prado, editor de Política e Brasil do GLOBO. Nas próximas duas semanas, estarei de férias para recarregar as baterias. A maratona da eleição vem aí. Após esse período, receba todas as quintas-feiras diretamente no seu e-mail (inscreva-se aqui). Até a volta!
Primeira colocada nas pesquisas na corrida para o Senado em Goiás, Gracinha Caiado (União Brasil) passou o último mês alertando o marido para o baixo índice de engajamento das suas postagens nas redes sociais — até então, focadas em falar de propostas ou exibir os feitos dos seus oito anos à frente do Palácio das Esmeraldas. As opiniões da primeira-dama estão por trás da guinada recente da campanha presidencial de Ronaldo Caiado (PSD), que aumentou o tom dos ataques contra o senador Flávio Bolsonaro (PL) à revelia do que pensa o seu próprio marqueteiro, o publicitário mineiro Paulo Vasconcelos.
Há duas semanas, o ex-estrategista digital de Flávio assumiu a administração das redes do ex-governador de Goiás e começou a bater de frente com tudo o que Vasconcelos vinha pregando internamente para a campanha do goiano. Marcos Carvalho, que também esteve na equipe do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018, venceu a batalha interna e, em um curto espaço de tempo, começaram a aparecer posicionamentos mais duros sobre o filho do ex-presidente.
Em 15 dias, Caiado chamou Flávio de “peru de Natal que Lula está cuidando” e disse que “o barco da candidatura está afundando” ao comentar a fragilidade do rival nas pesquisas e a dificuldade de fechar alianças; também ligou o filho do ex-presidente ao tarifaço do governo americano ao afirmar que ele “conspirou contra a economia brasileira”.
Na batalha de narrativas das correntes da campanha de Caiado, os dois lados têm em mãos dados para sustentar que estão certos nas suas convicções. A turma de Marcos Carvalho celebra os números da agência AP Exata, que apontou crescimento de 446% nas menções ao ex-governador nas redes sociais em quinze dias. Já o grupo ligado a Vasconcelos acende o alerta para índices apontados pela Brandwach, ferramenta referência de monitoramento digital no mundo. Uma amostragem de 42 mil menções em redes sociais de 1º a 15 de julho apontou a maioria com conteúdo crítico a Caiado: 47,2% das postagens foram negativas ao ex-governador, 40,4% neutras e apenas 12,4% positivas. Muitas mensagens apontaram Caiado como traidor e lembraram a aliança com o presidente do PSD, Gilberto Kassab, vice escolhido para a campanha presidencial e considerado um dos maiores rivais da direita.
A divergência explícita entre marqueteiro e estrategista digital — uma rotina cada vez mais frequente nas campanhas eleitorais brasileiras — também ocorre neste momento na campanha do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Só que com sinais trocados da disputa interna na campanha de Caiado.
Contratado desde o ano passado pelo mineiro, o antrópologo Renato Pereira havia conseguido convencer Zema a partir para o ataque contra Flávio Bolsonaro depois da divulgação do áudio em que o senador pedia dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark horse”, a cinebiografia do seu pai. Zema acabou ampliando seu engajamento com as críticas ao filho do ex-presidente mas, assim como Caiado, virou alvo do bolsonarismo nas redes — o que gerou reação de uma ala do seu partido aliada ao PL no Rio Grande do Sul e no Paraná.
Para dar novo rumo à campanha presidencial, o presidente do Novo, Eduardo Ribeiro, se aproveitou de uma dança das cadeiras no mercado do marketing político — outra rotina frequente nas campanhas eleitorais brasileiras. O publicitário Sérgio Lima, que tocou o digital de Jair Bolsonaro em 2022, deixou a campanha do escritor Augusto Cury (que contratou Leandro Groppo, ex-estrategista de Zema, em 2018) e foi contratado pelo Novo como consultor. Ao contrário de Marcos Carvalho que está influenciando Caiado a bater em Flávio, Sérgio Lima está levando o ex-governador de Minas a parar de atacar o filho do ex-presidente. Ontem, Zema focou em criticar o presidente Lula pelo tarifaço.
Nos próximos dias, termina o contrato de um ano de R$ 5,7 milhões de Renato Pereira com a pré-campanha de Zema. Se ficar para a campanha até outubro, Pereira seguirá defendendo o contraponto a Flávio. Se não adotar este caminho, como tem dito nas reuniões internas, Renan Santos (Missão) engolirá Caiado e o ex-governador de Minas nas urnas.
Recomendo
- 'A greve da seleção da França"
Futebol é incrível mesmo, passamos mais de um mês falando da França o tempo todo, mas no próximo domingo quem vai levantar a taça da Copa do Mundo será Espanha ou Argentina. Minha torcida será por Lionel Messi, desde já declaro por aqui.
A indicação da semana vem do colega Renan Damasceno nessa reta final de Mundial que vai deixar saudades. Ele próprio escreveu um texto sobre o tema que vale muito ler. E aqui o assunto é a França de novo, mas não essa seleção de 2026. "A greve da seleção da França", disponível na Netflix, fala da equipe de 2010, eliminada na primeira fase da Copa na África do Sul com atuações vexatórias. Naquele ano, os jogadores se rebelaram contra o técnico Raymond Domenech após a retirada de Nicolas Anelka do elenco.
É muito interessante lembrar os tempos pré-VAR e a classificação da França para aquela Copa depois de lance irregular do craque Thierry Henry contra a Irlanda nas eliminatórias, em 2009. No ano anterior, a França tinha sido desclassificada da Eurocopa precocemente e a implicância com Domenech já era grande. A ponto da opinião pública questionar demais o pedido de casamento que ele fez sem nenhum contexto para a então namorada ao vivo na TV.
É ele, Domenech, o protagonista de mais um enredo típico do futebol em que um técnico "perde o vestiário", expressão usada para definir quando há uma relação ruim entre comandantes e comandados no universo da bola. O documentário narra o episódio da discussão que Domenech teve com Anelka no intervalo de um jogo e a repercussão gigantesca que o episódio ganhou após uma manchete sensacionalista do jornal L'Équipe inventar um xingamento do jogador para o treinador que nunca ocorreu. Começa uma caça para saber quem foi o traidor que vazou a história para a imprensa de maneira deturpada e nos minutos finais do documentário a principal suspeita é apresentada (não falarei aqui para não estragar o final).
O mais divertido do documentário para mim foi ver os envolvidos se odiando até hoje ao comentar o passado. Quando comenta a carta que os jogadores franceses escreveram se recusando a treinar um dia e que ele próprio leu para a imprensa, Domenech alfinetou: "Fiquei surpreso de terem escrito sem erros de ortografia".
- Flávio Bolsonaro
- Ronaldo Caiado