O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta quarta-feira a decisão do governo de Donald Trump de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e classificou a medida como uma "atitude irresponsável" por parte dos Estados Unidos.
— É uma atitude irresponsável, impensada, para um país que tem 203 anos de relação diplomática — afirmou o presidente em entrevista ao canal Os Três Elementos.
A declaração foi feita um dia após o Departamento de Estado anunciar a revogação do visto diplomático da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti. Segundo autoridades americanas, a medida foi adotada em resposta à demora do governo brasileiro em conceder o agrément ao deputado republicano Daniel Perez, indicado por Trump para chefiar a embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
Apesar da revogação do visto, Viotti poderá permanecer em Washington enquanto o impasse diplomático não for resolvido.
Ainda segundo o presidente Lula, Washington teria conduzido mal a situação ao deixar a representação diplomática no Brasil sem embaixador por cerca de um ano e meio e, agora, exigir rapidez na aceitação do nome indicado por Trump.
— Os Estados Unidos não deram importância para a embaixada no Brasil, porque faz um ano e meio que não mandaram um embaixador para cá. Aí tentam mandar e acham que a gente tem a obrigação de fazer na data que eles querem? Não é correto e não é possível. Queremos ser tratados com respeito.
Lula ainda disse que o Brasil exige ser tratado "com respeito" e voltou a afirmar que o país não aceitará qualquer tentativa de interferência estrangeira nas eleições de outubro.
— O Brasil não só está preparado como vai enfrentar qualquer pessoa de fora que queira interferir no nosso processo eleitoral — declarou.
O presidente também comentou a decisão do Itamaraty de negar vistos a dois funcionários do governo americano que pretendiam viajar ao Brasil. Segundo reportagem do The Washington Post, eles planejavam discutir questões relacionadas ao processo eleitoral brasileiro e levantar dúvidas sobre a integridade das urnas eletrônicas.
— Depois eu fico sabendo da notícia de que vinham dois jovens para cá para se intrometer e fiscalizar, investigar as urnas brasileiras. O Itamaraty corretamente negou o visto para eles.
O petista afirmou ainda que determinou ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que não receberá embaixadores de nenhum país até a realização das eleições.
— Agora, até a eleição eu não recebo mais embaixador. Só depois da eleição é que vou receber, de qualquer país do mundo.
Big Techs
Ao falar sobre soberania nacional o petista voltou a defender que empresas estrangeiras, especialmente as plataformas digitais, estejam submetidas às leis brasileiras. Ele destacou que o governo dos Estados Unidos resiste à responsabilização dessas companhias.
— Eles acham que as plataformas não podem ser punidas por nada. Eu não sou contra as plataformas. Mas, se quiserem atuar em território nacional, têm que se subordinar à legislação brasileira.
Lula afirmou que o objetivo não é impor restrições às empresas, mas garantir tratamento igual ao dado às companhias nacionais.
— Não queremos punir. Queremos que a empresa americana venha para o Brasil tendo os mesmos direitos da empresa brasileira, da chinesa ou de qualquer outra. Mas isso aqui tem lei, tem país e tem governo.
Política externa em um eventual novo mandato
Ao falar sobre um eventual novo mandato, Lula disse que pretender manter uma política externa baseada em pragmatismo e nos interesses nacionais, independentemente da orientação ideológica dos governos estrangeiros. Segundo ele, a prioridade será reconstruir a integração sul-americana e ampliar o peso do Brasil nas negociações internacionais.
— Não vou levar em conta o comportamento ideológico dos presidentes para manter relações do Brasil com outro país. Vou levar em conta os interesses do Brasil.
Nesta semana, além do agravamento da crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, o governo Lula também viu aumentar a tensão com a Argentina após novas declarações do presidente Javier Milei contra o petista. Depois de uma série de ataques do líder argentino, o governo brasileiro decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas entre os dois países. Como consequência, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, não retornará ao posto.
A representação diplomática do Brasil passará a ser comandada pelo encarregado de negócios. No domingo, durante uma entrevista Milei chamou Lula de "ladrão" e "corrupto".