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'Mundo do mal vai ser expulso do governo neste ano', diz Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus

'Mundo do mal vai ser expulso do governo neste ano', diz Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus

A Marcha para Jesus, principal evento evangélico do país, teve início por volta das 10h15 nesta quinta--feira (4) de feriado de Corpus Christi, em São Paulo, e reuniu 33,8 mil pessoas, segundo monitoramento da USP. Apesar de uma promessa feita pela organização do evento de vetar atos políticos, houve caminho livre para o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) fazer discursos em tom eleitoral, associar o governo Lula ao "mundo do mal" e alegar uma suposta perseguição contra o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

— Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil este ano. Em nome do senhor Jesus, amém — disse Flávio, ainda durante o percurso, quando dividia o mesmo trio elétrico com o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, representante do governo Lula (PT).

Na véspera, o apóstolo Estevam Hernandes, líder da Igreja Apostólica Renascer em Cristo e organizador do evento, disse ao GLOBO que não haveria declarações do tipo. Antes de acessar o veículo, ele reafirmou que não estava colocando o filho de Bolsonaro "num palanque" e que a conotação do evento "não é absolutamente política". Apesar disso, declarou que pessoalmente está inclinado a apoiar Flávio Bolsonaro.

— Não tenho ainda uma definição de apoio, mas é uma tendência natural, até em função do quadro polarizado que temos hoje — declarou o religioso.

À tarde, já na estrutura para shows montada na Praça Heróis da FEB, que atendeu a multidão após uma caminhada de 3km na capital paulista, Flávio foi novamente convidado a falar ao público, aos gritos de "Bolsonaro". O senador entrou no palco com os dedos apontados para o céu e cantou um louvor, enquanto carregava nos braços a bandeira israelense.

— Quero pedir a todos que orem por Jair Messias Bolsonaro, pelo Brasil, que voltará a ser uma nação irmã de Israel. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

Flávio repete, assim, a postura do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, há quatro anos, quando também fez da Marcha para Jesus um suporte eleitoral. Na ocasião, Jair definiu a disputa contra Lula, da qual viria a sair derrotado, como uma "guerra do bem contra o mal" e afirmou ser "contra o aborto, a ideologia de gênero e a liberação das drogas", apostando na pauta de costumes que ressoa em públicos conservadores.

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Não havia previsão de fala de Flávio, segundo informado ontem por Hernandes, apenas do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), na qualidade de autoridades com participação direta na realização da Marcha para Jesus.

Entre os shows de artistas gospel, Tarcísio cantou uma música com o público e Nunes declarou que o grupo defende “a família, o combate às drogas, o direito à vida”. Depois de Flávio, todos se ajoelharam para uma oração conjunta, conduzida pelos bispos da denominação evangélica.

Na transmissão oficial do evento, Flávio também foi interpelado sobre os "valores de família, hoje em dia muito contestados por boa parte da sociedade" e associou a condenação de Bolsonaro por golpe de estado a uma perseguição política.

— Certamente o meu pai estaria aqui se pudesse, se não fosse vítima dessa perseguição há alguns anos.

Flávio, Tarcísio e Messias

No trajeto entre o metrô da Luz e a Praça Heróis da FEB, no Campo de Marte, Flávio e Tarcísio dividiram o trio elétrico com o ministro da AGU, Jorge Messias.

A primeira fala de Flávio ocorreu neste momento, quando estava na parte de trás do trio, lado oposto ao do ministro, junto com o governador e o prefeito. Ele pediu a palavra quando já tinha um microfone em mãos e arriscava, pela primeira vez, cantar um louvor, mesmo falhando em vários versos.

Messias ficou o tempo inteiro na parte dianteira do veículo, posicionado à esquerda, sem interagir com os adversários políticos. Ele, contudo, intermediou uma ligação do presidente Lula para o apóstolo Estevam Hernandes, publicada depois nas redes sociais.

— Eu não participo de nada da religião em época de eleição, porque eu não quero passar a ideia de que estou tentando ter proveito político de uma coisa sagrada — afirmou o petista na ligação.

Messias chegou cedo, acenou a fiéis e gravou vídeo ao lado do anfitrião do evento. A partida do trio principal, contudo, só ocorreu com a chegada de Flávio, Tarcísio e Nunes, acompanhados da dupla de candidatos ao Senado — André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa, e Guilherme Derrite (PP), deputado federal e ex-secretário estadual de Segurança Pública. O líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, próximo do pastor Silas Malafaia, também esteve presente.

— Hoje é um dia de louvar e adorar a Deus. Hoje não é dia de comício, eu vim aqui com esse espírito — declarou o ministro ao GLOBO, enquanto o trio ainda estava em movimento. Ele não fez discursos. — As pessoas vão julgar o comportamento e a declaração de todos que estão aqui, não sou eu que vou julgar. Jesus nos ensinou a não julgar.

Messias, na Marcha para Jesus, em São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo
Messias, na Marcha para Jesus, em São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo

Rejeitado a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado mesmo com apoio de líderes evangélicos, Messias comparece pelo quarto ano seguido no lugar de Lula, que encerra o terceiro mandato sem participar da caminhada. André Mendonça, juiz da Corte e um dos principais entusiastas da indicação, também manteve discrição no trio e não quis falar com a imprensa.

Lula avalia reenviar a indicação, da qual já se manifestou em público, mas a estratégia gera debate interno do ponto de vista político e jurídico. Messias não quis detalhar quando a medida será tomada e o que falta. Colegas do governo entendem que depende de uma pacificação na relação com o presidente do Senado, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil), do Amapá, apontado como o principal responsável pela derrota histórica.

O GLOBO também questionou Messias sobre a ausência de Lula em mais esta edição da Marcha, na qual o presidente também não enviou a carta que costuma mandar ao apóstolo Hernandes.

— O presidente Lula não concorda com o uso da religiosidade do povo para fins políticos, mas ele me pede (para vir), me envia como demonstração de carinho de respeito que ele tem a Deus e ao povo de Deus. Neste ano, ele ligou para o apóstolo Estevam (em vez de enviar a carta), fez uma linda fala com o apóstolo, mostrou o carinho pelo povo de Deus — disse o ministro da AGU.

Tarcísio e Nunes com as primeiras damas, perto de Messias (de óculos escuros) — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo
Tarcísio e Nunes com as primeiras damas, perto de Messias (de óculos escuros) — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo

Apoio evangélico

Pela sua proximidade com o segmento — ele frequenta a Igreja Batista desde a infância —, o chefe da AGU recebeu o apoio na empreitada ao STF de bispos com milhares de fiéis em suas congregações. Parte deles reforçaram, inclusive, o corpo a corpo final com os senadores, mas não conseguiram reverter o resultado.

A edição marca ainda o reencontro entre Flávio e Tarcísio após a operação da Polícia Civil de São Paulo contra Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora de "Dark Horse", filme que enaltece a trajetória política de Jair Bolsonaro misturando fatos com ficção. A polícia investiga se, no contrato de R$ 157 milhões da prefeitura de São Paulo com a ONG Instituto Conhecer Brasil, presidida por ela, para instalação de pontos de wi-fi na capital, houve direcionamento de licitação, sobrepreço e desvio de dinheiro público para a obra.

O governador fez um breve discurso no meio da caminhada em que declarou que "São Paulo é do Senhor Jesus Cristo". A maior parte do público celebrou a fala, inclusive Hernandes. Mas a reportagem também viu um homem protestar contra a participação dele e de Flávio. Nunes falou a seguir, mantendo o protocolo e sem direcionamento político explícito.

Segundo apurou o GLOBO, a operação da polícia provocou incômodo nos bastidores da direita. Além de trazer de volta à pauta as polêmicas sobre "Dark Horse", que envolvem ainda uma contribuição de R$ 61 milhões do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a pedido de Flávio Bolsonaro, a ação da polícia mirou a gestão do prefeito Nunes, responsável pelo contrato com o ICB.

Marcha para Jesus, nesta quinta (4), em São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo
Marcha para Jesus, nesta quinta (4), em São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo

Tarcísio disse, após a operação, que não interfere no trabalho da Polícia Civil e que a corporação "tem autonomia para fazer as suas investigações e operações". Nunes ensaiou o discurso de perseguição política dentro das instituições do estado, enquanto Flávio insinuou que poderia estar sendo vítima de "pesca probatória", mas do contrário apoia esclarecimentos sobre o contrato.

Nas últimas semanas, após a divulgação da visita de Flávio a Vorcaro, ocorreu uma espécie de "guerra fria" entre os núcleos de Flávio e Tarcísio. De um lado, o governador reforçou o distanciamento estratégico da campanha do aliado com receio de se "contaminar" com "encrencas de terceiros", nas palavras de um aliado. A postura deu resultado perante a opinião pública, segundo avaliações internas, mas gerou novos focos de reclamação no grupo bolsonarista.

A Marcha para Jesus chega à 34ª edição em São Paulo. Considerado o maior evento evangélico do país, adota o versículo bíblico “Todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus é o Senhor” (Filipenses 2:10-11) como lema. O percurso de 3km entre a Estação de Metrô da Luz até a Praça Heróis da FEB, próxima do Campo de Marte, reuniu milhares de fiéis junto a oito trios elétricos. A programação anuncia shows até o anoitecer de artistas gospel como Aline Barros e Thalles Roberto.

O evento foi criado em 1993 e hoje é replicado em outros 24 países, incluindo Japão, Argentina, Estados Unidos e Moçambique. O governo Lula costuma lembrar que uma lei sancionada por ele, em 2009, estabeleceu o Dia Nacional da Marcha para Jesus, sempre 60 dias depois da Páscoa.

Haddad no interior

Em visita à festa de Corpus Christi em Matão, no interior paulista, o ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT) afirmou que o atual governo estadual de negligência cidades médias do interior em favor de grandes obras que "não saíram do papel".

O presidente estadual do PT e pré-candidato a deputado federal Edinho Silva, que também participou da entrevista para a TV Cidade, questionou o posicionamento de Tarcísio diante das tarifas norte-americanas: "Cadê o Tarcísio na defesa da indústria do Estado de São Paulo?"

A segurança pública foi o tema mais enfatizado da conversa, e Haddad prometeu apresentar um plano que, segundo ele, "vai encher os olhos das pessoas." "Nós vamos fazer da segurança pública uma prioridade do Estado de São Paulo", disse Haddad. "Pelo que eu soube, quem está pagando os bombeiros aqui é o prefeito, não é o governo do Estado", criticou.

* Colaborou Filipe Vidon