A pouco mais de dois meses das eleições, o governador Jorginho Mello (PL) atua para manter o seu favoritismo em Santa Catarina com vistas à recondução ao cargo, mas enfrenta um cenário de rompimento de uma ampla aliança que o ajudou em 2022. Apesar de liderar as pesquisas de intenção de voto, o governador perdeu o apoio de MDB e PP durante a definição da chapa, privilegiando uma composição “puro-sangue” para o Senado. As duas siglas foram cooptadas pelo seu principal adversário, o ex-prefeito de Chapecó João Rodrigues (PSD).
Jorginho se lançou candidato na disputa pelo comando do estado pela primeira vez há quatro anos e venceu com folga o petista Décio Lima no segundo turno, com o apoio dos candidatos de direita e centro que concorreram na primeira etapa: o senador Esperidião Amin (PP), o então governador Carlos Moisés (Republicanos) e o deputado estadual Antídio Lunelli (MDB).
Depois da vitória com 70,69% dos votos válidos, Jorginho manteve as siglas como aliadas, dando-lhes espaço na gestão estadual, poder de indicação em secretarias e outros cargos dos primeiros escalões da gestão. O grupo político, contudo, rachou em meio às negociações da chapa para a reeleição. O primeiro desembarque foi do MDB — o maior partido em número de filiados em Santa Catarina tinha a expectativa de ocupar a vice na nova composição, após sinalizações dadas pelo governador desde o ano passado.

Troca de nomes
A sigla, no entanto, foi preterida pelo Novo, que botou Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville, na vaga. O anúncio desencadeou a saída de emedebistas da base de Jorginho na Assembleia Legislativa e do comando das pastas que ocupavam. Em carta aberta divulgada pela direção estadual, o presidente do diretório da legenda, deputado federal Carlos Chiodini (MDB-SC), disse que o grupo foi “esnobado” e afirmou que a sigla “não nasceu para aceitar migalhas”. O documento foi divulgado após Jorginho organizar um encontro de prefeitos emedebistas que contrariaram a orientação da sigla e anunciaram apoio a ele.
Além do MDB, o PP optou por romper com o PL após Esperidião Amin ser deixado de lado na composição majoritária. O senador, que busca a reeleição, era visto como uma das indicações de Jorginho. Os planos do governador mudaram, no entanto, após o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) determinar que o filho Carlos Bolsonaro (PL), ex-vereador no Rio, ficasse com uma das duas vagas disponíveis para o Senado, abrindo uma disputa entre Amin e a deputada federal Caroline de Toni (PL-SC) pela segunda indicação.
Ao ser comunicada pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, de que poderia não ser a escolhida, a parlamentar ameaçou deixar o PL e iniciou tratativas com outros partidos, incluindo o Novo. Após um período de indefinição interna, Carol e Carlos foram anunciados como os selecionados para uma chapa puro-sangue.
Em resposta, Amin conseguiu espaço na composição do ex-prefeito de Chapecó João Rodrigues, pré-candidato e principal adversário de Jorginho. Rodrigues também negociou com o MDB, indicando Carlos Chidioni para a vice e Antídio Lunelli para o Senado. O ex-prefeito enfrentou resistência de uma ala de seu próprio partido, ligada ao atual prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, que declarou apoio a Jorginho e, posteriormente, decidiu deixar a sigla, relembra o presidente estadual do PSD, Eron Giordani.
Em pré-campanha desde o início deste ano, Rodrigues busca se colocar como representante da “direita raiz”. Ele acusa Jorginho de ter atuado no passado, quando era senador, em favor do governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
— Há uma diferença grande entre minha posição e a dele. Eu sou uma direita conservadora histórica. Eu nunca me aliei politicamente à esquerda. Mas eu respeito meus adversários. O governador já esteve aliado politicamente com a presidente Dilma em 2014. Ele é um homem público que não é posicionado, ele se alinha ao momento — afirmou Rodrigues.
O apontamento por já ter estado ao lado de Dilma também foi explorado na eleição de 2022, quando o então candidato a governador foi à Justiça para tentar retirar do ar uma fotografia, publicada no site do Movimento Brasil Livre (MBL), em que ele aparece ao lado da petista. À época, a campanha do PL alegou que a imagem havia sido descontextualizada e que era referente a um debate em que ambos participaram em 2009 sobre a exploração de pré-sal em Santa Catarina. O pedido foi negado pelo Tribunal Regional Eleitoral do estado.
Do outro lado, integrantes da esquerda no estado têm o desafio de montar um palanque para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Escalaram o ex-deputado estadual Gelson Merísio (PSB), que voltará a disputar um cargo eletivo após ficar oito anos afastado. Em 2018, ele perdeu a eleição para o ex-governador Carlos Moisés, filiado ao mesmo partido de Bolsonaro na época, o PSL.
Nas semanas que antecederam o pleito, no entanto, Merísio decidiu declarar apoio a Bolsonaro ao afirmar, em um vídeo de campanha, que o escolheria por “uma questão de coerência com o que desejava Santa Catarina”. Ao sair da disputa derrotado, afastou-se do bolsonarismo e, nos anos seguintes, se aproximou de Décio Lima, coordenando a campanha que levou o petista ao segundo turno no estado em 2022, feito inédito para o partido desde a redemocratização. No mesmo período, Merísio também teria se aproximado de Lula.
— Durante muitos anos estive em um campo político mais ligado à centro-direita. Hoje, porém, entendo que as políticas desenvolvidas pelo presidente Lula são as que mais contribuem para reduzir as desigualdades e fazer o país crescer, tanto na economia quanto na área social — disse Merísio.
Cenário nacionalizado
Neste ano, a chapa de Merísio, descrita por aliados como uma reunião do “campo democrático”, incluirá a ex-deputada Ângela Albino (PDT), escolhida para a vice, e o vereador por Florianópolis Afrânio Boppré (PSOL), indicado para o Senado junto a Décio. O grupo será associado a Lula numa disputa estadual influenciada pela corrida presidencial, uma vez que Jorginho fará palanque para o senador Flávio Bolsonaro (PL).
A artilharia do governador contra o presidente ganhou projeção nas últimas semanas, após o petista, durante uma visita ao porto de Itajaí (SC), criticar a ausência do mandatário no evento e mencionar uma lei sancionada que dava fim às cotas raciais nas universidades estaduais catarinenses. A legislação acabou sendo vetada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
— Não tem um cara que é branco e é melhor do que qualquer negro, o cara que é nordestino e é pior do que qualquer um do fundo do país. Que história que é essa? A gente não aceita. Hitler tentou fazer isso e acabou do jeito que acabou. A gente não pode permitir essa ideia da hegemonia branca sobre o restante do país — disparou. — Vocês não podem permitir que prevaleça em Santa Catarina o racismo. Não podem permitir que as pessoas sejam tomadas pelo senso de grandeza, porque esse estado é muito rico, não é pobre.
Em um vídeo publicado nas redes sociais após o episódio, o governador devolveu as críticas ao petista e acusou-o de não agir pelos cidadãos catarinenses.
— O Lula toda vez que vem para cá não entrega nada. Só vem para falar mal da gente. Nunca nos ofereceram esse investimento — rebateu o governador após o presidente dizer que ele não se sentou com o Ministério dos Transportes para discutir investimento bilionário em estradas do estado. — Qual é o tamanho da cabeça desse cidadão? Qual é a qualidade da massa encefálica que ele tem na cabeça? É de se pesquisar, porque um ser humano não pode ser pequeno a ponto de não privilegiar os interesses do povo de Santa Catarina.