A operação deflagrada nesta sexta-feira pela Polícia Federal (PF), que tem o ex-governador Claudio Castro como um dos alvos, movimentou parlamentares pelos corredores da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), em meio às discussões sobre a crise fiscal do estado e os debates internos sobre orçamento. Nos corredores da Casa, deputados classificaram o impacto da operação como uma “bomba” na imagem do presidente Douglas Ruas (PL), num ambiente que já vinha sendo marcado por disputas sucessórias, exonerações e investigações envolvendo aliados do antigo núcleo do Palácio Guanabara.
A operação autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), cumpriu 17 mandados de busca e apreensão no âmbito das investigações sobre supostas irregularidades envolvendo a Refit, antiga Refinaria de Manguinhos. Entre os alvos estão o desembargador afastado Guaraci Vianna, o ex-secretário estadual de Fazenda Juliano Pasqual e o ex-procurador do estado Renan Saad.
Na Alerj, o episódio acabou contaminando as discussões sobre arrecadação e equilíbrio fiscal do estado. O deputado estadual Vitor Juior (PDT) afirmou que a operação representa “um duro golpe” para a imagem do Rio.
— Mais uma vez nosso estado vira manchete negativa em todo o país, em uma crise política, moral e financeira interminável que precisa ter um fim. Na Alerj o clima não poderia ser diferente. É um momento de tensão e, obviamente, este é o assunto dominante na Casa — disse o parlamentar.
Já o deputado Luiz Paulo (PSD), partido do ex-prefeito Eduardo Paes, classificou a investigação como uma "consequência esperada" diante do histórico da refinaria com débitos tributários e acusações de sonegação fiscal.
— A Refit é uma devedora histórica do fisco estadual, desde antes de se chamar Refit. Quando Ricardo Magro ainda era dono de distribuidoras, já havia sonegação de ICMS e adulteração de combustível. Depois que ele comprou a Refinaria de Manguinhos, houve um salto nos valores sonegados. Ela se tornou a segunda maior devedora da dívida ativa do estado, em torno de R$ 14 bilhões — afirmou.
Segundo Luiz Paulo, a ofensiva da PF pode ter impacto direto sobre a arrecadação estadual em um momento de fragilidade financeira.
— Esse setor de combustíveis é um dos que mais sonegam. Com essa operação, essa prática pode diminuir e o estado arrecadar mais, o que é fundamental diante da crise fiscal que vivemos — completou.
Ruas e a crise de imagem
Deputados avaliam que o atual presidente da Casa, Douglas Ruas, acabou sendo atingido indiretamente pela crise política envolvendo aliados do antigo governo. Parlamentares descrevem que Ruas caiu em uma espécie de “arapuca” desde que assumiu o comando da Assembleia, diante da sequência de investigações da PF contra integrantes da base política e da onda de exonerações promovidas pelo governador em exercício, Ricardo Couto.
Aliados de Ruas avaliam que o desgaste se soma ao fracasso da tentativa do parlamentar de assumir interinamente o governo estadual após a saída de Castro, no fim de março. Com a vacância temporária, o comando do Executivo ficou com o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto, terceiro na linha sucessória.
Ruas chegou a recorrer ao STF para tentar ocupar o cargo, mas teve o pedido negado.
Dentro do PL, deputados afirmam que ainda é cedo para avaliar os desdobramentos judiciais contra Castro e dizem acreditar que o ex-governador conseguirá provar inocência. Ao mesmo tempo, parlamentares reconhecem que Ruas terá dificuldades para consolidar uma eventual pré-candidatura ao Palácio Guanabara em um cenário de forte turbulência política.
Nos bastidores, a avaliação é de que a tentativa de ocupar temporariamente o governo tinha como objetivo ampliar a visibilidade do presidente da Alerj no estado. Pesquisas internas do PL indicariam que parte significativa do eleitorado fluminense ainda desconhece Ruas, o que acendeu o alerta entre aliados sobre a necessidade de ampliar sua exposição política. No entanto, as operações frequentes que miram deputados da Casa criou uma "bolha negativa" que Ruas precisa furar.
O cenário sucessório para 2026 ainda é considerado embrionário, mas a primeira pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril apontou Ruas como um dos nomes da direita para a disputa ao governo estadual, embora ainda enfrente altos índices de desconhecimento fora da Região Metropolitana. Deputados também interpretam as recentes mudanças promovidas no primeiro escalão do governo estadual como uma tentativa de reorganizar a máquina administrativa antes do prazo eleitoral de julho, quando a legislação passa a restringir nomeações e exonerações.