Após investigadores apontarem indícios de uma relação espúria entre o líder do governo Jaques Wagner (PT-BA) e um dos ex-sócios do Banco Master, o baiano Augusto Lima, a Polícia Federal (PF) pretende avançar na apuração do caso a partir do material recolhido na nona fase da Operação Compliance Zero. Os próximos passos envolvem, entre outras medidas, a perícia do dinheiro apreendido em endereços ligados ao político e também a análise de conteúdo de dois celulares do petista. A apuração sobre eventual compra de blindagem política feita por Daniel Vorcaro também pode avançar a partir do entendimento das atividades de novos operadores identificados pela corporação.
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Policiais irão periciar US$ 55.175 e 33,5 mil euros apreendidos para verificar a origem dos recursos e analisar se o montante é compatível com a justificativa apresentada por Wagner.
O parlamentar afirmou que o dinheiro encontrado é resultado de diárias não utilizadas em missões internacionais oficiais e de moeda estrangeira comprada por ele para viagens ao exterior. O montante equivale a R$ 482 mil, valor 43% maior que os R$ 336.966,24 recebidos pelo senador em diárias desde 2019, início do mandato.
Em meio à pressão, o futuro do senador na liderança do governo deve ser definido em um encontro presencial com o presidente Lula no começo da próxima semana.

O ‘RG do dinheiro’
A PF irá analisar elementos como a numeração de série das cédulas e checar se as notas correspondem às que foram sacadas pelo senador quando fez as viagens oficiais. A sequência numérica funciona como uma espécie de “RG do dinheiro” e permite identificar, por exemplo, o ano em que as cédulas foram emitidas e os lotes de impressão.
Ao todo, a PF apreendeu US$ 49 mil em espécie em um quarto do hotel Brasília Palace, onde o senador se hospeda quando está na capital. Em Salvador, os agentes também encontraram 33,5 mil euros e US$ 6.175 em um endereço do parlamentar.
Os mandados de busca e apreensão foram cumpridos após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça autorizar a ação.
Segundo a decisão, Wagner teria sido o beneficiário de “vantagens econômicas” supostamente concedidas por integrantes da instituição financeira em troca de atuação parlamentar em temas de interesse do banco.
Entre os benefícios apontados pela PF estão o pagamento de um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões em Salvador, o uso de aeronaves particulares e ingressos para um show em Los Angeles. O senador nega as acusações e diz que “não é réu, não foi denunciado nem acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados”.
Em entrevista à BandNews horas depois de ser alvo da operação, Wagner afirmou que o dinheiro encontrado pela PF é legal.
— Eu várias vezes viajei para o exterior. De 2019 para cá, eu recebi de diárias aproximadamente 70 mil dólares. E outras vezes que eu fui viajar eu comprei, via Banco do Brasil, onde eu tenho conta, dólares ou euros para fazer a viagem. Eu não tenho nenhuma coisa para esconder. Esse dinheiro está guardado no cofre. Quando vou viajar, nem sempre eu levo a diária, às vezes eu gasto com cartão e, portanto, o dinheiro está lá — disse Wagner, acrescentando que as cédulas das diárias estão em envelopes com timbre do Senado.
Procurada, a assessoria de Wagner não detalhou qual parcela corresponde a diárias do Senado e qual é o montante oriundo de compra de moeda feita diretamente pelo parlamentar.
Ao GLOBO, o Senado informou que as diárias são disponibilizadas aos beneficiários por meio de ordem bancária, com repasse pelo Banco do Brasil, que pode efetuar crédito em conta ou pagamento em espécie, a critério do interessado.
A Casa informou ainda que as diárias têm caráter indenizatório e são pagas antecipadamente para cobrir despesas com hospedagem, alimentação e deslocamento. Pelas regras, a restituição dos recursos é exigida apenas quando o deslocamento não ocorre ou quando o beneficiário retorna antes do período inicialmente previsto.
A PF também apreendeu dois celulares em endereços de Wagner. Os investigadores querem saber o teor das conversas do parlamentar com Augusto Lima. Parte desses diálogos já foi identificado no celular do empresário, que chegou a ser preso na Operação Compliance Zero, foi liberado e hoje foi alvo de buscas.
A PF também irá verificar se havia contato direto entre Wagner e Daniel Vorcaro, o que o petista nega.
Em nota, a defesa de Augusto Lima classificou as ações da PF como “desnecessárias”, pois ele já estaria à disposição das autoridades “há seis meses”.
Wagner está na liderança do governo no Senado durante todo o terceiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. Nas gestões petistas passadas ele acumulou funções importantes no governo federal, como os ministérios da Casa Civil, Defesa e Relações Institucionais.
Reunião decisiva
Enquanto a conversa com Lula não ocorre, aumentou a pressão no entorno do presidente para que o parlamentar se afaste da liderança do governo no Senado. A expectativa é que o movimento parta do próprio senador, para evitar constrangimento a Lula.
A permanência dele no cargo divide integrantes do Palácio do Planalto e aliados do presidente no Congresso. A avaliação é que é preciso preservar a imagem do governo e do próprio presidente às vésperas da eleição. A permanência do senador no cargo de confiança é vista como prejudicial para a narrativa de que o governo é rigoroso nas investigações do caso Master e defende punição aos envolvidos, doa a quem doer. A palavra final caberá a Lula.
Integrantes da cúpula do PT tentam convencer Wagner a abrir mão da liderança desde quinta-feira. Pessoas próximas afirmam que isso foi tratado como possibilidade em uma reunião entre aliados de Wagner e o próprio petista em Salvador (onde ele está). De acordo com relatos, Wagner teria reagido bem à possibilidade de deixar o posto, mas uma definição só deve ocorrer após a conversa com Lula.
O senador Camilo Santana (PT-CE), ex-ministro da Educação, é visto hoje como a melhor opção para assumir o posto. Além de próximo de Lula, mantém boa interlocução com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Desde a indicação de Jorge Messias ao STF e sua posterior rejeição, Alcolumbre se afastou de Wagner.
- Jaques Wagner