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'Proveito político de coisa sagrada': Lula explica ausência na Marcha Para Jesus em telefonema a Messias

'Proveito político de coisa sagrada': Lula explica ausência na Marcha Para Jesus em telefonema a Messias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não foi à 34ª Marcha para Jesus, realizada nesta quinta-feira (4) de Corpus Christi em São Paulo, mas enviou uma mensagem aos organizadores em uma ligação intermediada pelo ministro da advocacia-geral da União (AGU) Jorge Messias, novamente o representante do governo federal no maior evento evangélico do país.

  • Público: Marcha para Jesus reúne 33,8 mil pessoas em São Paulo, diz monitoramento da USP
  • Messias rebate Flávio: 'Não é dia de comício e as pessoas vão julgar'

Messias estava ao lado do apóstolo Estevam Hernandes, líder da Igreja Renascer em Cristo e organizador da caminhada. Por telefone, o presidente mandou um recado aos fiéis e explicou sua ausência: disse que não participa de eventos do gênero em época de eleição para não dar uma impressão errada a seu respeito.

— Eu não participo de nada da religião em época de eleição, porque eu não quero passar a ideia de que estou tentando ter proveito político de uma coisa sagrada — afirmou o presidente na ligação, recebida por Messias. A declaração foi feita enquanto representantes do governo e da oposição dividiam o mesmo trio elétrico no evento.

No trio principal, Messias manteve postura discreta e ficou distante do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Hernandes disse mais cedo que não faria do evento um "palanque" para Flávio e que orientou as autoridades a evitarem dar declarações com contornos políticos. O filho de Jair Bolsonaro, porém, repetiu a postura do pai há quatro anos e alegou que o Brasil vive uma "guerra espiritual" em que o "mundo do mal" está no comando do país.

Na mesma ligação, Lula afirmou estar "muito feliz" com a Marcha e evocou sua trajetória com a data. Em setembro de 2009, Lula sancionou a lei que criou o Dia Nacional da Marcha para Jesus, sempre 60 dias após o domingo de Páscoa.

— Eu estou muito feliz, porque é uma coisa que eu sancionei há tanto tempo atrás. É uma coisa muito importante — disse o presidente da República, que concorrerá à reeleição em outubro.

Messias representa Lula no evento pelo quarto ano consecutivo e, com isso, o petista encerra o terceiro mandato sem comparecer ao evento. "A minha presença, a pedido do presidente, teve um único propósito: louvar e engrandecer a Deus", escreveu o ministro em suas redes sociais.

Marcha para Jesus reúne milhares de evangélicos nas ruas de SP — Foto: Reprodução/Youtube
Marcha para Jesus reúne milhares de evangélicos nas ruas de SP — Foto: Reprodução/Youtube

Messias rebate Flávio

Apesar de uma orientação do apóstolo Estevam Hernandes, organizador do evento, para que discursos políticos fossem evitados em ano eleitoral, Flávio, sobre o mesmo trio principal em que estava Messias, disse ao microfone que o 'mundo do mal vai ser expulso do governo neste ano'.

Essa é a primeira vez que o ministro encontra o público depois de ter a nomeação ao Supremo Tribunal Federal (STF) barrada pelo Senado, em uma derrota histórica para o governo com a digital do presidente da Casa, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil), do Amapá. Lula avalia agora reenviar a indicação, mas a estratégia gera debate interno do ponto de vista político e jurídico.

Ao GLOBO, ainda com o trio elétrico em movimento, Messias afirmou que o evento “não é dia de comício” e colocou “nas mãos de Deus” o reenvio de sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF), rejeitada no Senado.

Pela sua proximidade com o segmento — ele frequenta a Igreja Batista desde a infância —, o chefe da AGU recebeu o apoio na empreitada de bispos com milhares de fiéis em suas congregações. Parte deles reforçaram, inclusive, o corpo a corpo final com os senadores antes do revés no Congresso.

Outro entusiasta da entrada de Messias na Corte era André Mendonça, ministro do STF indicado por Bolsonaro sob a credencial de "terrivelmente evangélico". Ele também foi à Marcha em São Paulo nesta quinta, mas se manteve longe dos holofotes e não quis dar entrevistas.

Reencontro entre Flávio e Tarcísio

A edição marca ainda o reencontro entre Flávio e Tarcísio após a operação da Polícia Civil de São Paulo contra Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora de "Dark Horse", filme que enaltece a trajetória política de Jair Bolsonaro misturando fatos com ficção.

A polícia investiga se, no contrato de R$ 157 milhões da prefeitura de São Paulo com a ONG Instituto Conhecer Brasil, presidida por ela, para instalação de pontos de wi-fi na capital, houve direcionamento de licitação, sobrepreço e desvio de dinheiro público para a obra.

O governador fez um breve discurso no meio da caminhada em que declarou que "São Paulo é do Senhor Jesus Cristo". A maior parte do público celebrou a fala, inclusive Hernandes. Mas a reportagem também viu um homem protestar contra a participação dele e de Flávio. Nunes falou a seguir, mantendo o protocolo e sem direcionamento político explícito.

Segundo apurou o GLOBO, a operação policial provocou incômodo nos bastidores da direita. Além de trazer de volta à pauta as polêmicas sobre "Dark Horse", que envolvem ainda uma contribuição de R$ 61 milhões do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a pedido de Flávio Bolsonaro, a ação da polícia mirou a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), responsável pelo contrato com o ICB.

Tarcísio disse, após a operação, que não interfere no trabalho da Polícia Civil e que a corporação "tem autonomia para fazer as suas investigações e operações". Nunes ensaiou o discurso de perseguição política dentro das instituições do estado, enquanto Flávio insinuou que poderia estar sendo vítima de "pesca probatória", mas do contrário apoia esclarecimentos sobre o contrato.

Nas últimas semanas, após a divulgação da relação entre Flávio e Vorcaro, ocorreu uma espécie de "guerra fria" entre os núcleos de Flávio e Tarcísio. De um lado, o governador reforçou o distanciamento estratégico da campanha do aliado com receio de se "contaminar" com "encrencas de terceiros", nas palavras de um aliado. A postura deu resultado perante a opinião pública, segundo avaliações internas, mas gerou novos focos de reclamação no grupo bolsonarista.

A Marcha para Jesus chega à 34ª edição em São Paulo. Considerado o maior evento evangélico do país, adota o versículo bíblico “Todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus é o Senhor” (Filipenses 2:10-11) como lema. O percurso de 3km entre a Estação de Metrô da Luz até a Praça Heróis da FEB, próxima do Campo de Marte, reuniu milhares de fiéis junto a oito trios elétricos.

A programação anuncia shows até o anoitecer de artistas gospel como Aline Barros e Thalles Roberto. Os trios param e a multidão se dirige a um palco único. Novas falas de autoridades podem ocorrer no meio da tarde. O evento foi criado em 1993 e hoje é replicado em outros 24 países, incluindo Japão, Argentina, Estados Unidos e Moçambique.

33,8 mil pessoas

Com a presença de líderes religiosos e dos políticos, a edição deste ano reuniu um público de 33,8 mil pessoas nesta quinta-feira (4), estima levantamento do Monitor do Debate Político da USP/CEBRAP em parceria com a ONG More in Common.

Como a margem de erro é de 12%, isso quer dizer que havia entre 29,8 mil e 37,8 mil participantes às 10h20, horário de pico entre a concentração e o deslocamento. Os organizadores divulgaram uma previsão de público de 2 milhões, muito acima do observado.

O evento começou por volta das 10h na estação da Luz, no Centro. O percurso tem cerca de 3,5 quilômetros e conta com oito trios elétricos. O destino final é a Praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Zona Norte da capital, onde serão feitas apresentações de artistas da música gospel até 21h.