Apontado pela Polícia Federal como intermediário dos contatos de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, o advogado Ciro Rocha Soares nasceu na Bahia, mas foi criado em Minas Gerais.
- Vorcaro diz ao STF que fica ‘desconfortável’ em firmar delação com a PF: ‘Tinha relação com diretor-geral’
- Lado a lado: os registros do primeiro encontro entre Mendonça e Moraes após embate sobre Vorcaro
Depois, voltou para o estado natal, se casou e passou um longo período vivendo em Salvador, onde construiu sua carreira como advogado. Mais tarde, deixou a Bahia e foi para São Paulo, ampliando também sua circulação por Brasília.
Nesse meio tempo, em uma passagem em Minas Gerais, conheceu Vorcaro, antes de assumir o controle do Banco Master. Segundo relatos, os dois são atleticanos e se conheceram no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, na torcida do Galo.
Soares é sócio-administrador do escritório Rocha Soares Advogados Associados, fundado em 2018 e sediado em Salvador. Registros judiciais mostram que ele atua há mais de duas décadas, principalmente em processos empresariais, eleitorais e criminais.
- 'Dá pra segurar?' e 'já tenho que estar fora?': mensagens detalham como Vorcaro recorreu a Moraes para adiar operação da PF
Entre seus clientes esteve o ex-governador do Rio Wilson Witzel. Soares integrou a defesa do político em ações penais que tramitaram no Superior Tribunal de Justiça (STJ) após o afastamento de Witzel do Palácio Guanabara, em 2020. Mais recentemente, passou a compor a equipe de advogados de Vorcaro. Em novembro de 2025, participou do pedido de habeas corpus apresentado para tentar revogar a prisão preventiva do banqueiro.
Além da atuação nos tribunais, Soares construiu uma extensa rede de contatos em Brasília e na política baiana. Próximo do senador Otto Alencar, presidente do PSD na Bahia, o advogado já representou o partido e o próprio parlamentar em processos no estado. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Otto afirmou que três viagens feitas por ele em aeronaves da Prime You, empresa que teve Vorcaro entre os sócios, foram pagas por Soares.
O advogado também participou das articulações para a concessão dos títulos de cidadão baiano a Gonet e ao ministro Dias Toffoli, do STF. As homenagens foram entregues pela Assembleia Legislativa da Bahia em março de 2025. Durante a cerimônia, o deputado estadual Niltinho (PSD) agradeceu publicamente a Otto e a Soares pela participação na organização do evento.
Ministros do STF em 1ª sessão após revelação de relatório com mensagens de Vorcaro a Moraes

1 de 8
Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes na cerimônia da Corte Interamericana de Direitos Humanos no STF — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo

2 de 8
Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão no STF após revelação de mensagens com Vorcaro. — Foto: Evaristo Sa / AFP

3 de 8
Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão no STF após revelação de mensagens com Vorcaro. — Foto: Antonio Augusto/STF

4 de 8
Ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Edson Fachin (de costas) durante sessão do STF — Foto: Brenno Carvalho/ O Globo

5 de 8
Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão no STF após revelação de mensagens com Vorcaro. — Foto: Evaristo Sa / AFP

6 de 8
Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, que também foi mencionado em mensagens de Vorcaro, em sessão do STF. — Foto: Antonio Augusto/STF

7 de 8
Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão no STF após revelação de mensagens com Vorcaro. — Foto: Antonio Augusto/STF

8 de 8
Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão no STF após revelação de mensagens com Vorcaro. — Foto: Antonio Augusto/STF
A circulação do advogado nos meios político e jurídico também o aproximou de André Mendonça. Segundo relatos publicados pelo UOL, Soares participou, em 2021, da campanha pela aprovação da indicação do então advogado-geral da União para uma vaga no Supremo. Ele teria ajudado Mendonça a abrir portas em gabinetes do Senado durante os meses em que a indicação permaneceu parada antes de ser submetida à votação
A relação entre os dois teria se estreitado a partir daquele período. Soares e Mendonça passaram a manter contatos frequentes e participaram juntos de eventos jurídicos, inclusive no exterior. Em fevereiro de 2025, segundo a PF, o advogado enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado do ministro e afirmou que estava “trabalhando” para o banqueiro.
- Faça o teste do GLOBO e descubra: com qual candidato a presidente você mais se identifica?
As conversas obtidas pela Polícia Federal mostram que Soares e o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) também atuaram para organizar um encontro entre Vorcaro e Mendonça. A reunião ocorreu em 14 de março de 2025, no Instituto Iter, fundado pelo ministro, em São Paulo.
Mendonça confirmou ter recebido o banqueiro, mas afirmou que o encontro durou entre 20 e 30 minutos e que se limitou a ouvi-lo sobre uma disputa judicial envolvendo precatórios. O ministro declarou ainda não se recordar de ter tratado de assuntos relacionados ao Banco Central ou ao Master com Soares antes de o caso chegar ao STF.
No dia seguinte à reunião, Soares enviou ao fundador do Master uma fotografia ao lado de Gonet e escreveu que o procurador-geral queria falar com ele. Segundo a PF, quatro ligações foram realizadas na sequência por meio do telefone do advogado. Para os investigadores, os registros indicam que Soares funcionava como uma ponte entre o banqueiro e o chefe da Procuradoria-Geral da República, órgão máximo do Ministério Público Federal (MPF).
O relatório policial também reproduz mensagens nas quais Soares atribui a Gonet manifestações de apoio ao Master e trata da participação do procurador-geral e de seu filho, Pedro Gonet, em um evento que seria promovido pelo banco em Londres. Vorcaro teria autorizado o pagamento das despesas do filho do PGR, mas a viagem não ocorreu porque o encontro foi cancelado durante a crise da instituição financeira.
Outras conversas analisadas pela PF indicam que Soares recorreu a Gonet para tentar favorecer a candidatura de seu primo, Jarbas Soares Júnior, à presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais. Segundo o relatório, o advogado pediu ao PGR que interviesse para retirar um concorrente da disputa. Jarbas foi eleito para o cargo em 2024.
Após a divulgação do material, Gonet questionou a validade do relatório e sustentou que Mendonça não tinha competência para determinar diligências contra pessoas específicas sem pedido da PGR ou da própria Polícia Federal. O procurador-geral também afirmou que as mensagens foram retiradas de contexto e não demonstram a prática de irregularidades.
Eleições 2026:
- Vorcaro: ‘Achava que tinha construído um sistema para me proteger, e tudo se virou contra mim’
- Lado a lado e sem menções à crise: os registros do primeiro encontro entre Mendonça e Moraes após embate sobre Vorcaro
- Ministros do STF ignoram crise envolvendo Moraes em primeira sessão após revelação de relatório com mensagens de Vorcaro
- Dark Horse: PGR fecha delação com empresário que fez pagamentos a fundo de advogado de Eduardo Bolsonaro
- Dos motivos para Cury crescer ao acirramento de Lula x Flávio: veja todos os números da Quaest
- Em conversa com Lula, Gilmar Mendes aponta culpa do governo na crise do STF
- André Mendonça
- Daniel Vorcaro
- Ministério Público Federal
- Otto Alencar
- PL
- PSD
- Paulo Gonet
- STF
- Wilson Witzel