Com resistências de parlamentares mais à direita e mais à esquerda, a tentativa do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de aprovar o voto distrital misto aposta em divisões nas bancadas atuais do PT e do PL sobre o tema. Deputados dessas duas siglas se dizem contra a proposta, mas Motta e aliados tentam atrair nomes que já foram favoráveis à ideia no passado e cujo perfil de votação pode ser beneficiado pelo novo modelo. O GLOBO ELEIÇÕES: Entre na comunidade no WhatsApp e saiba tudo sobre a repercussão dos resultados da eleição de 2026 MAPA DA APURAÇÃO: Veja os resultados de Lula e Flávio Bolsonaro em cada cidade e estado neste segundo turno Diferentemente do sistema atual, o proporcional, em que o eleitor escolhe qualquer candidato concorrendo no seu estado, o modelo defendido por Motta e pelo Centrão divide cada estado em distritos, nos quais o deputado mais votado é eleito. Parlamentares avaliam que a mudança pode tirar força de nomes com perfil “mais ideológico”, cuja votação tende a ser mais dispersa pelo estado. No modelo distrital misto, o eleitor vota duas vezes: parte dos deputados é eleita pelo distrito e parte em um segundo voto, que é feito no partido. Dirigentes favoráveis a esse modelo avaliam que ele tende a mitigar a atuação dos “puxadores”, isto é, deputados com alta votação que acabam ajudando a eleger outros nomes. A bancada bolsonarista é vista como entrave à proposta. Neste ano, a votação recorde de nomes como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) puxou a reeleição de deputados como Junio Amaral (PL-MG), Marcelo Álvaro Antonio (PL-MG) e Mario Frias (PL-SP) — que poderiam não ter votos suficientes para manter o mandato em outro sistema — e ajudou a eleger novos deputados ligados ao bolsonarismo, como Gil Diniz (PL-SP) e Caporezzo (PL-MG). O atual líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), já se manifestou contra a mudança. No Rio, Sóstenes foi o deputado reeleito que mais ampliou sua votação neste ano. Já a deputada Julia Zanatta (PL-SC), que foi a mais votada em Santa Catarina, acusou caciques partidários de tentarem “fortalecer um tipo de coronelismo”. — Querem conter os puxadores de votos, como eu, Pavanato, Nikolas. Vamos ter que ficar submissos a partido — reclamou Zanatta. Já o deputado Altineu Côrtes (PL-RJ), que é próximo ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, avalia que o assunto ainda precisa ser analisado. Uma projeção do think tank “Ranking dos Políticos” após a eleição deste ano indicou que o PL poderia até ampliar a sua bancada na Câmara a depender das regras do voto distrital misto. — Todos têm direito de apresentar suas propostas, o PL vai avaliar com calma. Este tema é bastante complexo e merece muita atenção e cautela — diz Altineu. No modelo atual, cada eleitor vota uma vez para deputado, e a distribuição de cadeiras na Câmara leva em conta o somatório de votos de todos os candidatos do partido. Se essa soma fez um partido ter votos suficientes, por exemplo, para preencher cinco cadeiras em determinado estado, então os cinco deputados mais votados dessa sigla serão eleitos — ainda que parte deles tenha votação pior do que não eleitos de outras siglas. Aceno à esquerda Já a proposta de Motta, que tem apoio de lideranças de siglas como União Brasil, PP, PSD, Solidariedade, PSDB e PSB, atrela o primeiro voto a uma atuação mais local, e prevê que o segundo voto esteja vinculado à estratégia de cada partido. Aliados do presidente da Câmara apostam que acenar com o formato de “lista fechada” nesse segundo voto pode atrair o apoio de partidos de esquerda. O PT é historicamente favorável à lista fechada, na qual o partido é que determina a ordem dos candidatos. O deputado Rogério Correia (PT-MG), contrário ao voto distrital misto, avalia que a mudança aumentaria o custo das campanhas e não resolveria problemas do modelo atual, “que concentra voto em deputados influencers”. — Minha opinião é que poderiam ser dois votos, mas dentro de um sistema proporcional em lista partidária. Primeiro a pessoa votaria no partido, e depois no candidato desse partido — opina Correia. Já o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) diz que o sistema defendido por Motta “dilui completamente o voto ideológico” e “limita o surgimento de novas lideranças”, como os recém-eleitos Jones Manoel (PSOL-PE) e Ana Elisa (PT-MG). A jovem deputada petista, de 21 anos, por exemplo, se sobressaiu nas urnas mesmo sem estar entre as principais apostas da cúpula do partido, e foi a mais votada do PT em Minas Gerais. — Esta mudança para o voto distrital seria retornar ao voto oligárquico — critica Braga. O PT chegou a conduzir, em 2017, durante o governo Michel Temer, uma proposta de reforma política para adotar o voto distrital misto. À época, o então deputado Vicente Candido (PT-SP) foi relator da proposta. Ainda assim, parte da bancada do PT votou contra o relatório do correligionário. Reservadamente, porém, integrantes da Câmara avaliam que quadros importantes da esquerda poderiam se beneficiar agora do modelo de voto por distrito. O presidente do PT, Edinho Silva, é um dos exemplos de votação concentrada em um reduto: ele se elegeu à Câmara neste ano obtendo 30% dos votos de Araraquara (SP), cidade onde foi prefeito. Nomes de outras siglas com perfil semelhante de votação também tendem a ver com bons olhos o modelo distrital misto. Ventilado como futuro relator da proposta, o deputado Domingos Neto (PSD-CE) teve cerca de 40% dos votos de Tauá, município do sertão cearense que já foi governado por sua mãe. A cidade se tornou um dos principais destinos do orçamento secreto quando Neto foi o relator do Orçamento. A Câmara já fez três tentativas de mudar o sistema de votação desde a década passada, mas todas tiveram votos contrários principalmente da esquerda. No último movimento, em 2021, sob a presidência de Arthur Lira (PP), a Câmara votou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que tinha semelhanças com a atual proposta de Motta: no intervalo de duas eleições, parte dos deputados passaria a ser eleita de forma majoritária e parte de forma proporcional, com uma regra de transição. Partidos como PT, PDT, PSOL e PCdoB ficaram contra a medida, que acabou derrotada. Em 2017, sob a presidência de Rodrigo Maia, os deputados tentaram aprovar uma transição para o voto distrital misto através do “distritão” — modelo que elege somente os mais votados em cada estado —, mas não houve maioria. Antes, em 2015, o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, teve apoio de aliados, incluindo Motta, para pautar a adoção permanente do distritão. O PT, maior bancada à época, ficou contra, e a proposta não foi à frente.
Receita contra 'puxadores': sob objeção de PT e PL, Centrão aposta em racha nas siglas para emplacar voto distrital misto