Prestigiado na Bahia, com entrada tanto no PT quanto no carlismo e no PL, o ex-vendedor de abadás Augusto Lima escalou no mercado a partir de um negócio de ouro. Era 2018 quando o petista Jaques Wagner, então secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, criou incentivos para que o empresário comprasse a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal) por preço modesto, sem herdar dívidas e com direito a operar os supermercados Cesta do Povo e o Credcesta, cartão que viraria a gênese da entrada do Master, do futuro sócio Daniel Vorcaro, no mercado de crédito consignado.
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Hoje, milhares de processos na Justiça têm o cartão como alvo, e a expansão dos negócios de Lima e Vorcaro, catapultados pela influência política, estão no centro de investigações da Polícia Federal. Na semana passada, a nona fase da operação Compliance Zero atingiu justamente Wagner, atual líder do governo Lula no Senado, que teria atuado no Congresso para beneficiar os negócios da dupla, segundo os investigadores.
As apurações são conduzidas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Já no Tribunal de Justiça da Bahia, mais de 10 mil processos miram no produto turbinado por Augusto Lima. Há relatos de cobranças indevidas, e decisão recente deu razão a uma servidora que indicou descontos irregulares.
A gênese
Criada no final da década de 1970 pelo governador Antônio Carlos Magalhães, a Ebal tinha como objetivo ajudar a população mais pobre a comprar produtos básicos. Na prática, contudo, a empresa vinha dando sucessivos prejuízos à administração pública, o que fez o governo Rui Costa, do PT, decidir vendê-la.
De tão desvantajoso que era o negócio, com rombo estimado de R$ 750 milhões em 2015, ninguém quis adquiri-lo nos dois primeiros leilões. Só que Guga, como é conhecido o empresário, conseguiu um bom acordo. Inicialmente, em janeiro de 2016, a oferta mínima era de R$ 81 milhões. Mais de dois anos depois, ele pagou R$ 15 milhões — e sem herdar o passivo, que ficou com o próprio governo.
Além do preço ter caído mais de 80% em relação à primeira oferta, quem comprasse a Ebal passaria a operar junto aos servidores baianos um cartão de crédito consignado, aquele cuja cobrança se dá com descontos na folha de pagamento.
Uma das vitrines da antiga estatal é a Cesta do Povo, rede de supermercados populares que hoje está privatizada. A marca chegou a ter mais de 400 unidades no passado, mas caiu para cerca de 50. O Credcesta, que já existia, era inicialmente limitado a compras realizadas nessas lojas, mas um decreto de 27 de abril de 2018, pouco mais de duas semanas depois da aquisição, ampliou o escopo e permitiu que os servidores o utilizassem em qualquer outro estabelecimento na modalidade crédito.
A abrangência ampliada não foi a única concessão do governo. Cresceu ainda o percentual da renda que poderia ser comprometido com consignado. A lei estabelecia 30%, mas, com o Credcesta, ficava permitido mais 10%.
Assim, Guga passou a gerenciar um sistema de consignado altamente lucrativo, calcado no consumo dos funcionários públicos e nos juros. Além disso, ganhou exclusividade na operação, o que lhe garantiu o domínio absoluto daquele nicho por 15 anos.
Bem-sucedido na Bahia, Lima buscou uma forma de expansão. Na procura por um banco que viabilizasse a empreitada, desembarcou na Faria Lima. Só bateu à porta do Master por acaso. Segundo reportagem da revista piauí, a ideia era convencer o BMG a entrar na jogada, mas não foi bem-sucedido. No mesmo prédio, passou no andar da recém-criada instituição de Vorcaro e saiu de lá com o acordo.
Demorou pouco até iniciar a sociedade, que começou em 2019 e foi até 2024. No Master, virou também CEO de varejo, função que o fez liderar a expansão do banco no mercado de crédito, peça-chave da entrada da instituição em governos estaduais e da diversificação do portfólio de Vorcaro rumo a camadas populares.
O Rio, então comandado pelo PL, foi o primeiro. Em 2021, decreto assinado pelo ex-governador Cláudio Castro seguiu o padrão baiano ao ampliar a fatia dos vencimentos que poderia ser comprometida pelo consignado.
Até tudo começar a ruir, no ano passado, Guga desfrutava de enorme prestígio na política da Bahia, e não só com o PT. Em dezembro de 2024, por sugestão de um deputado do PL, Vitor Azevedo, foi agraciado com a Comenda Dois de Julho, a principal do Legislativo local. “Augusto Ferreira Lima é empresário e acima de tudo filho da Bahia”, apontou o deputado no texto que justificava a premiação.
No ano anterior, o lançamento da ONG Terra Firme, iniciativa do empresário com a mulher, a ex-ministra do governo Jair Bolsonaro (PL) Flávia Arruda, reuniu adversários políticos. Estavam lá tanto o governador petista Jerônimo Rodrigues quanto opositores, como o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União), e o ex-prefeito ACM Neto (União). Dois dias antes de Lima ser preso pelo escândalo do Master, em novembro de 2025, Neto e Bruno Reis usaram uma aeronave dele para um compromisso no interior.
No auge, Lima também acumulou influência em Brasília. Entre os interlocutores, Jaques Wagner seguiu relevante, de acordo com a PF. No Senado, o líder do governo Lula teria atuado para ajudar o Master em diferentes frentes, como o crédito consignado, o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e a tentativa de aquisição do Master pelo BRB.
Controladas por Lima, duas associações de servidores da Bahia serviram para o Master maquiar a venda fraudulenta de R$ 12 bilhões de uma falsa carteira de crédito ao Banco de Brasília. A manobra o levou à prisão em novembro.
Quando o Master começou a ter problemas de liquidez, em 2024, Lima saiu da sociedade e carregou consigo o Credcesta. Foi quando comprou o banco Voiter e o rebatizou de Pleno. Depois da liquidação do Master, no entanto, o Pleno teve o mesmo destino em fevereiro. O Credcesta foi interrompido, mas as contratações feitas até então seguem pendentes nas contas dos servidores.
A PF aponta relação de proximidade entre Wagner e Lima. Em uma das mensagens citadas, o empresário escreve ao senador: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!”.
Após a operação, Wagner disse que não recebeu dinheiro ou atuou pelo Master no Legislativo. A PF apontou recebimento de ingressos, aeronaves à disposição e um apartamento de R$ 2,45 milhões. O senador afirmou que pediu para Lima comprar o imóvel, que seria para sua filha, e que depois o recompraria. Já a defesa de Augusto Lima negou irregularidades e disse que ele sempre agiu dentro da lei.
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