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Remoção de agente da PF escala tensão entre Brasil e EUA com ameaça de Lula sobre uso de reciprocidade

Remoção de agente da PF escala tensão entre Brasil e EUA com ameaça de Lula sobre uso de reciprocidade

O anúncio de que o governo dos Estados Unidos demandou a saída do país de um agente da Polícia Federal (PF) que atuava junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) escalonou a crise entre a gestão de Donald Trump e o Brasil. Na terça-feira, durante agenda na Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) citou a possibilidade de adotar medidas de “reciprocidade” contra os EUA. Os desdobramentos da captura em Miami do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL), solto dois dias depois, somam-se a uma série de rusgas recentes, que incluem questões econômicas, como o tarifaço posteriormente revogado, e de segurança pública, devido à intenção do governo Trump de classificar facções brasileiras como terroristas.

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Foragido da Justiça nacional após a condenação pela trama golpista, Ramagem foi detido na semana passada pelo ICE por conta de um visto vencido. Segundo a própria PF, a prisão teria ocorrido graças a uma cooperação entre autoridades dos dois países. O principal nome dessa interlocução era o do delegado Marcelo Ivo de Carvalho, adido da corporação brasileira nos EUA.

Em postagem nas redes sociais na segunda-feira, sem citar nominalmente Carvalho ou Ramagem, o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, órgão ligado ao Departamento de Estado americano, informou que havia pedido que um “funcionário brasileiro” deixasse o país por suposto envolvimento numa tentativa de manipular o “sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”.

— Se houve um abuso norte-americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele (servidor americano) no Brasil. Não tem conversa. Queremos que as coisas aconteçam da forma mais correta possível, mas nós não podemos aceitar essa ingerência, esse abuso de autoridade que alguns personagens americanos querem ter com relação ao Brasil — afirmou Lula na Alemanha, pouco antes de embarcar para Portugal.

Uma portaria publicada na segunda-feira, assinada pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, formalizou a substituição de Marcelo Carvalho por Tatiana Alves Torres. A partir de agora, é a delegada que assumirá a função de oficial de ligação no ICE em Miami.

Embora haja um pedido de extradição de Ramagem nas mãos do governo americano, a PF decidiu apostar na deportação, aproveitando o fato de que o ex-deputado já não tinha mais visto válido para morar no EUA. Já o bolsonarista, condenado a 16 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), apresentou às autoridades do país um pedido de asilo, ainda em análise, por suposta perseguição política no Brasil.

Nas redes sociais, Ramagem repercutiu a decisão da gestão Trump e compartilhou com os seguidores na terça-feira um vídeo do ex-parlamentar Eduardo Bolsonaro (PL), que também passou a morar nos EUA há mais de um ano.

— (O delegado foi) expulso dos Estados Unidos como repercussão da prisão do Ramagem, ou melhor, da detenção. Tudo indica aí, gente, que a Polícia Federal quis dar uma de malandra. O caso do Ramagem, que seria um caso de extradição, porque ele tem uma condenação injusta no Brasil, a Polícia Federal tentou “bypassar” as autoridades americanas e tratar o caso como deportação por status migratório incorreto, o que na verdade também não se configura — diz Eduardo na gravação. — Se a cooperação (citada pela PF no dia da prisão) tivesse ocorrido, isso não estaria acontecendo.

Ruídos bilaterais

O episódio é mais um ruído na relação bilateral, estremecida recentemente pelo temor de que facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) possam ser enquadradas como grupos terroristas pelos EUA. Isso, na visão do Palácio do Planalto, poderia implicar em ações unilaterais de violação da soberania da maior nação sul-americana.

O tema tem ganhado força no debate público americano. Uma reportagem do Wall Street Journal publicada no domingo detalha como o PCC transformou-se em uma organização global do narcotráfico, com impacto direto nas rotas mundiais de cocaína e nos esforços de combate ao crime organizado.

Na avaliação da publicação, a quadrilha deixou de atuar só no Brasil para operar como uma “multinacional do crime”, com estrutura comparável à de uma corporação. Fundado em 1993 após o massacre do Carandiru, o PCC evoluiu, segundo essa ótica, de uma irmandade carcerária para uma rede global com presença em diversos continentes.

Apesar de uma reaproximação entre os dois chefes de Estado no ano passado, que incluiu uma conversa presencial entre eles, Lula também tem demonstrando insatisfação em seus últimos discursos com o papel de Trump na guerra contra o Irã. Após chegar a Portugal, em declaração ao lado do primeiro-ministro do país europeu, Luís Montenegro, o petista ironizou o presidente dos EUA:

— Todos os dias vemos declarações, não sei de brincadeira ou não, que Trump acabou com oito guerras e não ganhou o Prêmio Nobel. Melhor dar logo o prêmio para ele para não vivermos em guerra, para a gente viver tranquilamente.

Em agosto do ano passado, a relação entre os dois países já havia se tensionado com a aplicação, pelos EUA, de taxas de 50% sobre exportações brasileiras, em meio a uma ofensiva tarifária de Trump contra dezenas de países. Na ocasião, o presidente norte-americano citou a prisão de Jair Bolsonaro (PL) entre as razões para a medida, revogada em novembro.

O governo Trump também chegou a sancionar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a partir da aplicação da Lei Magnitsky, além cassar vistos de autoridades brasileiras. Neste caso, as determinações foram revistas em dezembro.

Cálculo eleitoral

A estratégia de antagonizar com Trump passa ainda por um cálculo eleitoral de Lula. Um dos temas que o petista pretende explorar na campanha pela reeleição é o da soberania, a exemplo do que já ocorreu no momento do tarifaço, que rendeu um ganho de popularidade ao presidente nas pesquisas. Além disso, a tática deve passar ainda por uma tentativa de colocar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula, como uma figura subserviente aos Estados Unidos.

Ontem, ao final da declaração conjunta com o primeiro-ministro português, sem permitir perguntas dos jornalistas, Lula disse a Montenegro que se, Portugal e Brasil forem à final da Copa do Mundo nos Estados Unidos, ambos estarão no estádio.

— Veremos a final ao lado do Trump — declarou.

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