A decisão do PP de barrar a entrada de Tereza Cristina (MS) na chapa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), além de ampliar os reveses do senador na busca por um vice, acrescenta mais um degrau ao movimento de afastamento do Centrão da campanha do presidenciável. A federação composta ainda pelo União Brasil segue rumo à neutralidade na corrida ao Planalto, enquanto o Republicanos, que realizará sua convenção nacional na próxima terça-feira, indica que tomará o mesmo caminho.
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Há quatro anos, tanto Republicanos quanto PP — à época não federado ao União — compuseram, junto do PL, a coligação de Jair Bolsonaro, que acabou derrotado ao concorrer à reeleição. Em 2018, os dois partidos, o Republicanos ainda com o nome de PRB, aliaram-se no entorno de Geraldo Alckmin (PSDB), assim como o Democratas, hoje chamado de União Brasil.
Desta vez, porém, as maiores siglas de centro relutam em embarcar numa candidatura à direita diante das sucessivas crises que envolvem a postulação de Flávio. Às incertezas sobre o bolsonarista, somam-se os desafios nas costuras estaduais, sobretudo em locais onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demonstra força, o que também contribui para a relutância.
Embora a campanha bolsonarista ainda pretenda esgotar as conversas com outras siglas antes de admitir uma chapa pura, dirigentes do PL já discutem com mais intensidade uma solução dentro do próprio partido. Até agora, ao menos dez nomes chegaram a ser ventilados como vice (veja abaixo). A preferência é por uma mulher, em busca de mitigar a baixa adesão de Flávio junto ao eleitorado feminino.
‘Nome ideal’ e frustração
O revés mais recente confirmou-se na sexta-feira. Depois de Tereza Cristina, que inicialmente recusara o convite, comunicar que estava disposta a integrar a chapa e tentar convencer o próprio partido a rever a neutralidade, o PP consultou seus diretórios estaduais e decidiu, por maioria, manter a posição. A senadora foi informada do resultado e, segundo nota da legenda, acatou a decisão. O partido também descartou convocar uma convenção nacional para discutir a entrada na coligação de Flávio.
O desfecho frustrou aquela que havia se tornado a principal aposta do PL para romper o isolamento. Tereza era considerada pela cúpula da sigla o “nome ideal” para a vice: ela tem trânsito com o Centrão, ligação com o agronegócio e poderia dar à candidatura o apoio de uma força política com capilaridade nacional. A disposição da senadora em aceitar o posto chegou a reabrir uma negociação que o PP considerava encerrada desde a semana passada, quando seu presidente, Ciro Nogueira (PI), havia comunicado a Flávio a decisão tomada.
A tentativa esbarrou, porém, em uma resistência que ia além da escolha da vice. Dirigentes do PP não aceitaram colocar em risco acordos estaduais já construídos, especialmente no Nordeste, para aderir a uma candidatura cujo sucesso consideram incerto. A federação formada por PP e União Brasil mantém alianças locais com diferentes grupos políticos, inclusive à esquerda, e concluiu que a neutralidade nacional preserva maior liberdade para os diretórios montarem seus palanques.
Também houve incômodo com a forma como Flávio conduziu a negociação. Integrantes da cúpula do PP classificaram reservadamente a exposição pública do nome de Tereza como uma espécie de “chantagem”. Sob essa ótica, o senador teria tentado criar um fato consumado em torno da parlamentar para aumentar o custo político de uma negativa posterior. Um dirigente afirmou que a tentativa de atrair a legenda foi conduzida “da pior maneira possível”.
A avaliação no PP é que a estratégia repetiu o movimento feito anteriormente com o Republicanos. Antes de avançar sobre Tereza, Flávio havia escolhido a ex-presidente da Caixa Daniella Marques como uma das principais opções para a vice, mesmo sem acordo com a direção da sigla em que ela está filiada. Nos dois casos, segundo integrantes do Centrão, o candidato procurou primeiro atrair o nome para depois pressionar o respectivo partido por uma adesão.
É justamente no Republicanos que Flávio pretende fazer agora uma de suas últimas tentativas antes de recorrer aos quadros do PL. O senador ainda quer convencer a legenda a permitir que Daniella seja sua vice e pretende manter as conversas até a convenção nacional do partido, na terça-feira.
A margem para uma reviravolta, entretanto, é considerada pequena. A ex-presidente da Caixa se filiou ao partido sem o conhecimento prévio do presidente Marcos Pereira e precisou recorrer à Justiça para ter o vínculo reconhecido. Como o prazo para mudança de legenda terminou em abril, ela também não poderia deixar a sigla para disputar a eleição por outra legenda.
Solução interna
Um outro partido também voltou ao radar do PL depois do fracasso da articulação com Tereza Cristina. Na sexta-feira, interlocutores de Flávio retomaram contatos com o Podemos e fizeram novas sondagens à presidente da legenda, Renata Abreu. Contudo, até o partido, consideravelmente menos robusto que os três já citados, vem sinalizando que não pretende aderir ao projeto presidencial do senador.
Apesar do cenário adverso, Flávio resiste a encerrar as negociações. A tendência é que a definição se arraste até que as possibilidades externas estejam formalmente esgotadas e só admita uma chapa pura perto do fim do prazo das convenções, em 5 de agosto. A estratégia busca evitar que um anúncio antecipado feche definitivamente as portas para uma composição de última hora.
Ainda assim, as discussões no PL para um eventual nome interno já geram divergências. Uma ala passou a defender o senador Marcos Pontes (PL-SP), ex-ministro da Ciência e Tecnologia de Jair Bolsonaro. Outro grupo, ligado à mobilização feminina da campanha, cobra que Flávio mantenha a promessa de ter uma mulher como companheira de chapa.
Não há, porém, consenso nem mesmo entre os defensores de uma vice mulher sobre quem deveria ocupar a vaga. Com as representantes do Centrão inviabilizadas, entre os nomes do PL cotados estão as deputadas Bia Kicis (DF) e Julia Zanatta (SC), bolsonaristas de primeira hora, e Priscila Costa (CE), aliada próxima de Michelle Bolsonaro e já defendida pela ex-primeira-dama.
- Flávio Bolsonaro